Opinião
PERTENCER
É uma questão delicada, ficar. É uma decisão que envolve compromisso, que exige uma maturidade que não sabemos ao certo se temos. Permanecer é mais que um compromisso, é uma devoção. É preciso ter uma confiança plena de que, entre todas as outras opções, existe uma irresistível, transcendendo as condições. O ato de pertencer é um dos mais profundos. Quando afirmamos que ficaremos, independentemente do que aconteça, apropriamo-nos de uma história que agora se uniu com a minha. Não foi à toa que Zygmunt Bauman observou que as relações sociais são líquidas, no sentido de não assumirem uma forma fixa e serem altamente mutáveis, ou seja, se começou a não satisfazer, são descartadas. O ser humano contemporâneo tem uma dificuldade enorme em criar raízes. Isso porque queremos voar mais, queremos logo algo para chamar de ?meu/minha? ou simplesmente nada parece ser atrativo o suficiente. ?A liberdade e a beleza são boas demais para desperdiçar? e ?A felicidade só é real quando compartilhada?, são frases do filme ?Na Natureza Selvagem?, que mostra a história de um jovem que largou tudo para viver como viajante pelo mundo afora. Apesar de parecerem antagônicas, ambas as frases se complementam. Pertencer não é sinônimo de ficar preso ou restrito, é de ser responsável. E não é apenas ser responsável pela decisão, e sim pelo meu coração. Quando negamos a beleza que nos atinge, negamos ser capazes de cuidar dos nossos sentimentos; desperdiçamos a oportunidade de deixar o bom nos alcançar. Mas se aceitamos a beleza que nos cativa, damos a oportunidade da troca. Quantas vidas não são mudadas ou trocam de posição por apenas uma simples imagem? Compartilhar também é pertencer, é colocar em mim aquilo que não sou eu, mas agora me pertence. É descobrir que existe algo que vai além de mim e que não importa o que aconteça, aquilo sempre estará comigo, estará me valorizando, meu coração pertence a outro lugar que não mais apenas dentro de mim. Pertencer é existir. Tudo isso só é possível com tempo. Se não há paciência, se não é espaço para o ?agora não?, não aprendemos a ser próprios de nada. Quando só o prazer e o imediatismo são as respostas, não existe espaço para se apropriar. Só nos tornamos íntimos quando aquilo que não é apresentável para todo mundo é compartilhado e muitas vezes não é fácil de lidar. É o cuidado que abre os olhos para ver que existe outra forma de lidar com nossos defeitos e nos faz pensar: ?Eu quero isso para mim, sempre?.