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AS L�GRIMAS DE MEU FILHO

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O meu filho mais velho sempre foi acomodado, estudioso e ajuizado. Brincava como qualquer criança, mas com responsabilidade. Não fazia estripulias absurdas que me obrigasse a castigá-lo. E se o puni alguma vez sinto grande remorso porque ele não merecia. Fi-lo por excesso de zelo. Lembro-me de uma vez, na animação de organizar com algumas amigas as fantasias de nosso bloco para o famoso Baile de Mascaras, organizado pela Sociedade de Proteção aos Filhos dos Leprosos, comandado por D. Maria Magalhães, estávamos, uma amiga e eu, escondidas na cabine de experimentar roupas da antiga loja, ?A Brasileira?, escolhendo, secretamente, o material para nossos disfarces. Havia levado comigo meus dois filhos mais velhos, nessa ocasião com cinco e quatro anos. Inadvertidamente esqueci-me de avisá-los onde me encontrava. Eles se divertiram olhando as vitrines e se perderam de mim. Pensando que eu havia saído, depois de me terem procurado por toda loja,meu filho mais velho, pegou a irmãzinha pela mão e não teve dúvidas, levou-a, atravessando ruas, entre a multidão, enfrentando o transito, até o consultório do pai, que ficava na Rua do Livramento. Chegou, para a admiração de todos, direitinho, como se já fosse um adulto. Era muito apegado a mim. Quando, numa ocasião tive que sofrer uma intervenção cirúrgica, minhas amigas, preocupadas por eu não ter com quem deixar meus filhos tão pequenos, já que meus pais já se tinham ido para o Rio de Janeiro, elas os levavam para a casa delas, mas o João Carlos nunca queria ir. Preferia ficar deitadinho na cama ao meu lado. Como Maceió não possuía bons colégios e todos que podiam colocavam os filhos internos em escolas longe daqui, meu marido e eu achamos por bem mandar os nossos para o Rio de Janeiro, onde meus genitores habitavam e poderiam lhes dar assistência. Os meninos foram para o Colégio São José da Tijuca, e minha filha foi interna no Colégio Sion de Petrópolis, educandários procurados pelas famílias mais tradicionais do Brasil. Meu filho mais velho passava uma semana chorando, quando se aproximava o dia de voltar para o colégio, depois das férias. Dava-me um aperto no coração vê-lo naquele estado, mas como achava que estava lhe proporcionando o que era melhor para sua formação, tornava-me irredutível. Nas férias procurava compensá-los fazendo-lhes todas as vontades, desde que não lhes fossem prejudiciais. Quando se tornaram adolescentes frequentavam as festinhas, reuniam os amigos em nossa casa, brincavam de tudo que desejavam desde que fossem distrações sadias. João Carlos era muito alegre e saudável, adorava dançar e ir para a fazenda andar a cavalo. Estudioso, estava sempre entre os primeiros da turma. Nunca me preocupou. Menino exemplar, rapaz ajuizado e feliz. Cursou a Universidade no Rio e lá ficou trabalhando e se especializando. Formou-se no dia em que fiz minhas Bodas de Prata, assim juntamos as comemorações. Alguns anos depois de formado, já trabalhando com o Dr. Jonas Arruda, grande oftalmologista, nosso amigo, casou-se. Após o nascimento do primeiro filho, resolveu atender os chamados de seu pai para que viesse exercer sua profissão aqui, junto dele, onde teria um consultório montado e outras facilidades, sendo, ambos, médicos. Apaixonado pela carreira, sempre dedicado e estudioso, logo conquistou uma boa clientela. Pouco tempo depois teve uma filhinha e vivia feliz com sua família. Mas aos 50 anos começou a sentir os mesmos sintomas que acometeram seu pai aos 67 anos. Foi muito duro para ele e para todos nós que o amávamos. Viu sua carreira, em plena ascensão e para qual tanto se dedicara, de repente, cortada. Teve que abandonar tudo e entrar numa batalha inglória contra o mal que o acometera, herança genética da família de seu pai. Há vinte e três anos que estava quase imobilizado, a maior parte do tempo numa cadeira de rodas. Mas a consciência, de vez em quando, se mostrava presente o bastante para que ele compreendesse qual era o seu estado e o que o destino lhe reservara. As lágrimas, então, desciam pelas suas faces, principalmente quando via as pessoas que amava. Naqueles olhos marejados havia uma expressão muito grande de dor e de incompreensão diante de um lastimável estado que ele nada fizera para merecer! É difícil aceitar um destino tão cruel, sobretudo quando não se contribuiu em nada para fazer jus a isso! Afinal depois de tanto tempo, a morte chegou para levá-lo! Mas como sofreu! Espero em Deus que ele esteja ao seu lado, que encontre na vida celeste a felicidade que lhe foi tirada aqui na Terra! Se o Paraíso em que acreditamos realmente existe, que seja lá a sua nova morada! Amém!

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