Opinião
A SECA E OS SERT�ES
?De repente, uma variante trágica. Aproxima-se a seca. O sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo?. A observação é do engenheiro Euclides da Cunha em ?Os Sertões?, obra que relata a Guerra de Canudos no final do século XIX. O que o escritor constatou há 119 anos, repete-se inexoravelmente, trazendo miséria e desespero, deixando atônitos governos que esgotam estratégias para enfrentar o desastre cíclico. Agora, mais uma vez, o Nordeste brasileiro está diante de um período de seca que já dura cinco anos. Desta feita, o impacto econômico tem sido ainda mais severo. Segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, divulgados pela Confederação Nacional dos Municípios, a seca causou um prejuízo de R$ 103,5 bilhões, entre os anos de 2013 e 2015, o equivalente à soma do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados de Alagoas, Sergipe e Piauí, em 2013. Este ano, com a crise que afeta a economia como um todo, o Nordeste, que vinha crescendo, recuou, e as previsões para o futuro não são otimistas. A seca deve perdurar. As adutoras, cisternas, os 6.800 carros-pipa não vão dar conta do que está por vir. Em Alagoas, o governo decretou situação de emergência em 40 municípios, mas está investindo no Canal do Sertão, que surgiu no meu primeiro mandato como governador do Estado. O Ministério da Integração Nacional liberou mais R$ 24 milhões para obras no Canal, que hoje garante o abastecimento de 358 mil pessoas. Contudo, há ainda muita gente sofrendo com a estiagem, que destrói a agricultura e mata os animais, e as prefeituras não têm condições de ajudar a todos. Os prefeitos peregrinam em busca de auxílio, mas diante da natureza adversa, os poucos recursos que chegam logo se esvaem, como agua em terra seca. O mais preocupante, é que o próprio Ministério da Integração afirmou que a seca pode afetar as regiões urbanas, cidades podem entrar em colapso. A bancada nordestina no Congresso Nacional tem debatido o assunto, mas a constatação é de que não há como fugir do emergencial. Obras como o Canal do Sertão são importantes, todavia, pontuais. Não há ainda um planejamento macro disponível para enfrentar a seca. Mesmo órgãos como o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca), criado em 1909, e que já construiu mais de 300 mil açudes, não dispõe de uma estratégia a longo prazo para resolver o problema. Por enquanto, como diria Euclides da Cunha, o sertanejo continua sendo um forte.