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VOC� QUE SE FOI

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Estou aqui, no silêncio da noite. Noite que já descamba para suas últimas horas. Noite de verão. Recordo o amigo. Meu amigo que partiu. Transporto-me para o passado, quando, aqui, nesse mesmo lugar, contemplávamos a lua, que havia nascido tardia, como se estivesse aguardando nossa chegada. O mesmo lugar de muitos encontros do nosso recente passado. Também hoje, sinto aquela brisa vinda do nascente, soprando suavemente minha face. Friozinho gostoso. O silêncio faz aguçar meus pensamentos. No passado, aqui, onde estou, sonhávamos por um futuro melhor. Para nós, para nossa família, para os mais necessitados, para a humanidade. Inebriado com a fantasia do momento, recordo cenas inesquecíveis do nosso cotidiano, em nosso Bananal. Nossos filhos brincando no largo da igreja, andando de bicicleta, brincando de ?pega?, ensaiando passos de danças e se apresentando para os avós, os pais e os parentes. Observando a criançada tomávamos um bom vinho. Eu contava ao amigo, as histórias dos antepassados do Bananal. Eu dizia: Gutemberg, ser bananazeiro é gostar desse lugarzinho, nosso País do Bananal. Meu amigo respondia: agradeço a todos do Bananal por ter me recebido nessa família, inclusive pelo carinho que têm pelos meus filhos Bruno, Janine e o caçula Hugo. São lembranças que jamais se apagarão da minha memória. (Bruno, filho de Gutemberg, escreveu: Trabalhador honrado, pai amoroso. Gutemberg alimentava uma paixão sem igual pelos filhos. Era capaz de dar a própria vida por eles. À esposa Leandra, nutriu um amor de encher os olhos. Foi Leandra, sua companheira inseparável, quem o fez retomar o sentido da vida). Continuo divagando meus pensamentos. Cinco anos já se passaram do trágico desaparecimento do meu amigo. Volto sempre aqui, nosso ponto central do povoado. Sozinho. Para recordar e pensar. Demoro minutos, por vezes, horas. Inebriado com minhas fantasias, o tempo passa rápido. Viro-me para o poente. Continuo observando o esplendor da lua e o céu salpicado de estrelas. A igrejinha do povoado, de roupa nova e iluminada com as luzes do Natal, se destaca. Está belíssima. Tem uma arquitetura muito bonita. Foi pintada com a colaboração de toda família. Novamente penso em meu amigo que se foi. Com lágrimas nos olhos, faço um revisão de quantos planos tínhamos elaborados juntos. Eram realizações para o Bananal, nosso reduto familiar. Efetivações também na vida profissional, para trabalharmos em conjunto. Ideias interrompidas bruscamente, com seu desaparecimento. Meu amigo! Posso dizer que, nesse caso, fiquei órfão! Sozinho, realizei pouco do nosso planejamento. Não desisti da realização dos nossos ideais. Tento encontrar novos parceiros. Clamou-os em minhas conversas, em meus artigos. Na hora certa, aparecerão. Irão se engajar no ideal da preservação e união da família, garantia do futuro do nosso povoado. Ainda sentado no cruzeiro do nosso povoado Bananal, nessa bonita noite de verão, olho para a lua, desaparecendo no horizonte. Sinto a presença espiritual do meu amigo Gutemberg. Recolho-me. Vou dormir. Continuar sonhando o sonho da amizade.

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