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Opinião

UM ENTARDECER

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Pediram-me, de chofre, que eu falasse sobre uma lembrança imorredoura, e a imagem surgiu logo em minha mente, catapultada pela saudade. O sol deitava as suas luzes sobre o canavial da Fazenda Cansanção, na hora do entardecer, tingindo de amarelo dourado o verde que se espraiava às margens do Mundaú. As águas refletiam os raios e brilhavam, alegres e vivas, singrando na eterna caminhada rumo ao mar longínquo. Enquanto a noite se avizinhava ao som dos pássaros que corriam para o abrigo das copas das árvores da praça da matriz, e as cigarras cantavam saudando a estrela d?alva, toda a cidade mergulhava na serenidade do fim do dia, como que descansando da sua faina e do seu labor. As coisas se aquietavam placidamente, no ritmo que lhes era próprio, sem pressa nem aperreio, e me assaltava uma certa melancolia sem que eu nem soubesse, ainda, o que significava essa palavra. Esse entardecer foi, dentre os muitos cenários da minha Murici natal, o que primeiro invadiu os meus olhos infantis e pôs neles o encantamento que, a partir dali, nunca mais se apartou do meu ser. Muitas vezes admirei, na quietude do pequeno quintal da minha casa e na solidão do menino tímido que eu era, aquele espetáculo da natureza em seu estado mais puro, ouvindo em meu coração a sinfonia que somente o silêncio é capaz de repercutir. Se existisse um paraíso ? pensava eu ?, ele haveria de possuir aquelas mesmas cores, aqueles mesmos tons, aquela mesma capacidade de nos serenar a alma e de nos conectar com o que há para além da nossa mísera condição humana. Se um dia eu fosse para o céu (naquele tempo eu ainda julgava merecê-lo!), que lá eu pudesse me deparar com igual profusão de beleza, testemunhando a grandeza do amor de Deus que nos brinda com tamanha generosidade. Jamais vi novamente um pôr do sol como aquele, certamente porque nunca mais eu pude ser de novo aquele menino; mudaram os meus olhos e ? ai de mim ? mudou também a minha alma. Mas ainda hoje, mesmo depois de já ter testemunhado tantas coisas bonitas por onde pude andar até agora, continuo vivamente apaixonado por aquela hora crepuscular. Quando volto à minha terra-mãe, seja a trabalho ou pelo puro prazer do retorno às origens, faço questão de passar pela beira do rio, do outro lado da ponte, em busca das mesmas sensações que ficaram desde então impregnadas em mim. Paro o carro, desligo o som, baixo os vidros para sentir o vento e mergulho nas minhas lembranças mais doces. Reencontro-me, enfim. E isso, ao menos nesses momentos, é o que me basta.

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