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Nº 5712
Opinião

Tributo a Bernardes

RONALD MENDONÇA* Num dia qualquer do início dos anos 60, um adolescente magro e meio desengonçado chorava sua amargura no pátio do antigo Colégio Diocesano. É que acabara de receber uma severa punição por ter, supostamente, aberto o viveiro de pássaros q

Por | Edição do dia 09/03/2002 - Matéria atualizada em 09/03/2002 às 00h00

RONALD MENDONÇA* Num dia qualquer do início dos anos 60, um adolescente magro e meio desengonçado chorava sua amargura no pátio do antigo Colégio Diocesano. É que acabara de receber uma severa punição por ter, supostamente, aberto o viveiro de pássaros que os irmãos maristas ciosamente mantinham. A expulsão, além de exagerada, pecava pela falta de provas irrefutáveis sobre a autoria do ato, digamos, ecológico-libertador. Estimado por todo o colégio, o acusado terminou sendo perdoado e sua “pena” comutada pela “leveza” de algumas horas de pé à porta do severo diretor, Irmão Máximo. O episódio marcou de tal forma o, até então, nada comportado menino que o transformou, se não num modelar, pelo menos num estudante mais disciplinado. Pouco tempo depois, o aluno que se chamava José Bernardes Neto, carinhosamente conhecido por Neguinho Zé Bernardes, condoído pelas dificuldades que os irmãos estavam enfrentando por conta da construção do novo colégio, lhes doaria um televisor, verdadeira jóia à época – arrancado à unha do governador Luiz Cavalcante. Já era o político de rara sensibilidade Zé Bernardes surgindo e que mal ingressara no curso colegial, com um discurso à esquerda do outro candidato, elegia-se presidente do tradicional Grêmio Ronald de Carvalho, do Colégio Marista. Logo depois, mostrava seu prestígio na classe estudantil fora dos muros do colégio, derrotando o venerado Tobias Granja, seu amigo até morrer. Marca inconfundível do meu saudoso amigo José era a solidariedade. Onde havia um colega ou um empregado do colégio aperreado, lá estava ele. E foi desse jeito a vida toda, derrubando barreiras com o coração. A irretocável trajetória de homem público não deixa dúvidas. Simples e humilde, nunca se valeu do poder e das amizades para perseguir ou retaliar. Não obstante o agravamento progressivo do estado de saúde, Bernardes reservava tempo para compartilhar do sofrimento dos amigos. Senti na alma, em vários situações de dolorosas perdas, a presença solidária desse amigo verdadeiro que até mesmo quando literalmente se arrastava, resistia a se afastar, demonstrando a profundidade do afeto. Apesar do mal-estar crônico, jamais perdeu o semblante bondoso, nem o doce sorriso de criança. Não me lembro de tê-lo visto amargurado, amaldiçoando a vida. Tampouco perdeu a esperança. Pois é. A longa luta desigual contra a enfermidade chegou ao fim. Pesaroso, saudoso, orgulho-me de ter convivi-do com essa pessoa extraordinária, inigualável na sua generosidade, mansa, sensata, incapaz de guardar rancor por mais que alguns minutos, incansável na arte de fazer o bem. Hoje, chego a lamentar pelos que nunca conviveram com ele, assim como por aqueles que não conseguiram suportar a grandeza da sua luminosidade. Na contramão das minhas tênues convicções, gostaria de acreditar que o meu velho e querido amigo tem o seu sono eterno embalado pelas maviosas sinfonias dos anjos e dos pássaros, quem sabe os mesmos que, num dia distante e qualquer, ele ajudou a libertar. Descanse em paz, Neguinho. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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