Opinião
BODES DE TOGA
Um levantamento feito pelo jornal O Globo mostrou que 3 a cada 4 juízes brasileiros recebem acima do teto constitucional. O valor excedente se deve a ?penduricalhos? que se incorporam na folha, como auxílio-moradia, como se os demais trabalhadores não precisassem morar em algum lugar. O pior sobre essas regalias é que elas são autoconcedidas. A Associação de Juízes Federais reagiu tentando negar o óbvio. Alegou que os valores indevidos se tratavam de verbas de origem adequada como férias, 13º e abonos, ignorando que a metodologia do levantamento já tinha desconsiderado todos esses fatores. Em novembro de 2007, uma juíza do Pará recebeu um ofício da polícia, em caráter de urgência, solicitando a imediata transferência de uma menina de 15 anos que havia sido presa numa cela masculina com quase 30 homens. A transferência só foi solicitada 20 dias depois, quando a adolescente já havia sofrido reiterados estupros e torturas. Após 9 anos a magistrada foi punida em pelo CNJ com 2 anos de afastamento das funções, algo que a maioria das pessoas comuns classificaria como férias remuneradas. A Associação Brasileira de Magistrados divulgou nota classificando a sentença como desproporcional, algo que só pode ser definido como uma ironia impudica. Casos de falhas isoladas não mancham a reputação dos juízes competentes e honestos, mas a manifestação acintosa de sua entidade de classe, defendendo o indefensável, sim. O valor médio que ultrapassa o teto na maioria dos casos é modesto, mas o silêncio sobre casos onde os salários chegam a ultrapassar 100 mil reais denigrem a imagem de toda a corporação. O poder judiciário é composto pela elite do País, no significado benévolo da palavra. São homens e mulheres da mais alta capacidade intelectual que fizeram por merecer estarem onde estão. Dentre os entes públicos, são nossa maior esperança de mudança para vencer um ancestral sistema construído para que a elite (no mau sentido) possa apoderar-se dos bens públicos. Se um movimento de reforma visando a correção dos maiores problemas, como a punição de desvios com aposentadoria precoce, não partir de dentro do próprio judiciário, os bodes continuarão na sala a incomodar. Não demorará para que toda a classe comece a ser pintada como vilões e para proporem falsas soluções, como aconteceu com os médicos.