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Opinião

DESALENTOS

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Fechar a tampa de um caixão que abriga o corpo de um ente querido é tarefa das mais dolorosas, menos somente do que depositá-lo na crueza de uma sepultura fria. Enquanto o velório transcorre, apesar de toda tristeza e sofrimento, sentimos como se a pessoa amada ainda estivesse conosco, embora muda e inerte. É-nos possível tocar-lhe as mãos enrijecidas, beijar-lhe a fronte gelada, olhar para a sua fisionomia impassível e imaginar, mesmo que ilusoriamente, que ela permanece conosco, ao alcance da nossa vista e do nosso braço. O ser que está ali, inanimado, nos evoca um turbilhão de sentimentos e de sensações. Uma vez concluído o enterro, já não é assim; despedimo-nos definitivamente, sem chance alguma de apelo nem de adiamento. O fim é jogado na nossa cara como uma tapa que queima a não mais poder, e o que nos resta é somente uma sensação de impotência sem par. O amigo ou parente que parte antes de nós leva consigo o não dito, o não vivido, o que se perdeu nas curvas traiçoeiras do caminho. A intenção jamais tornada gesto, o pensamento que nunca pôde transmudar-se em palavra e que restou apenas na mente de quem permaneceu do lado de cá da travessia. Ninguém parte estando totalmente quites com os que lhe eram caros; sempre há coisas que necessitariam ser melhor esclarecidas, pendências que deveriam ter sido resolvidas, perdões que haveriam de ser dados ou buscados. A morte, dentre outros desalentos, também nos traz mais esse: encerra qualquer possibilidade de resolvermos satisfatoriamente as nossas questões mais íntimas com aqueles que se vão para sempre. No silêncio que ela nos impõe, cria-se um fosso do inaudito que jamais poderá ser preenchido adequadamente. É uma porta que se tranca para nunca mais. Diante de uma existência humana que se encerra, somos testemunhas oculares também da nossa própria extinção. O cadáver alheio leva consigo muito do que era nosso, muito do que nós construímos nas nossas relações com a alma que o habitava, para o bem ou para o mal. Penso nisso a cada cerimônia fúnebre que presencio, entre lágrimas e lamentações. Nunca seremos indiferentes a essa circunstância, por mais que queiramos aparentar um alheamento que em verdade não existe. Quem parte dessa vida rumo ao desconhecido talvez já tenha encontrado respostas para as suas mais profundas indagações, talvez já esteja ?de si mesmo saldado?, como no verso de Jorge Cooper; a nós que ficamos, porém, restam questionamentos cada vez mais complicados. Para a nossa desdita, só Deus é capaz de saber se os resolveremos algum dia.

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