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Opinião

QUARENTA E OITO HORAS

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No pé daquelas serras Deus escolheu para decretar a sentença da paz. O lugar tem uma energia tão positiva que cada cantinho, cada detalhe possui magia própria. Para contrariar a teimosia do sol causticante ardendo nos quarenta graus do sertão, o vento sopra como a desafiá-lo sem parar, refrescando todos os cantos da casa da fazenda. E o alpendre? Ah, o alpendre! Esse é um santo cantinho para ler, escrever, refletir enquanto o céu carregado de nuvens, renova esperanças de que a chuva pode cair a qualquer instante. Só esperança! A chuva não vem. Mas, se preferir, a folhagem da caatinga pode ser colírio para os olhos. Para onde apontamos o pensamento um Ser especial está pronto para nos escutar. Todos os movimentos sugerem que Ele está muito próximo da gente olhando olho no olho. Não importa se manhã, tarde ou noite: silêncio! A toda hora nesse imenso confessionário da natureza, alguém de braços abertos espera pela confissão das nossas fraquezas e queixumes. Não tem lugar melhor para aquela assepsia espiritual. Câmara fotográfica na mão rompendo a caatinga fechada de Craibeiras, Baraunas, Aroeiras, Angicos e Mulungus. Pisando no chão rachado e esturricado, cruzando cercados ressecados sem pasto algum. Pausas para contemplar a obra da natureza com a formação de esculturas gigantes em pedras no alto da serra. ?Mandacaru quando fulora na seca, é sinal que a chuva chega no sertão?. Assim cantou o Rei do Baião. É não seu Luiz. Os Mandacarus estão belos, carregados de flores, mas a chuva é apenas a eterna esperança do sertanejo. Minhas últimas quarenta e oito horas foram assim, isolado do mundo moderno, longe da tecnologia sem celular, internet, TV ou outro meio de comunicação se não as estrelas os caminhos. Tempo suficiente para reencontrar o passado. Lembranças que ficarão gravadas nas cores da fotografia e no HD da memória. Das noites guardadas pelos cães vira-latas Chacal, Huck, Negão e Peri. O mugido das vacas apeadas no curral para a ordenha, entre elas as simpáticas Mimosa, Pretinha, Cara branca e Caramelo; os bois Roxão e Brutos, elegantes, poderosos, se achando! lá distante na cancela principal a chegada do negão Catatau, dois metros de altura trazendo a alvorada montado no seu jegue Policarpo, os pés quase arrastando no chão. Coitado do burrinho! Histórias de Lampião contadas pelo leiteiro Pinguelão que, segundo ele o Capitão Virgulino era hóspede frequente daquelas serras. ?Existem até marca nas pedras?, carimbando a mentira! Horas de espreita no pé do morro esperando a saída dos mocós para o banho de sol fazendo pose para o clique da minha câmara. ?Sertão, argúem te cantô, eu sempre tenho cantado, e ainda cantando tô, pruquê, meu torrão amado, munto te prezo, te quero e vejo qui os teus mistéro ninguém sabe decifrá, a tua beleza é tanta, qui o poeta canta, canta, e inda fica o qui cantá.? (Patativa do Assaré)

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