Opinião
REDES DE DESINFORMA��O
Só mesmo acreditando que Deus é brasileiro para imaginar que um sorteio escolheria para ministro relator da Lava Jato justamente o juiz mais técnico, probo e contido da corte. Deus é um traíra. Não é recomendável que deixemos em suas mãos novamente o destino da maior operação anticorrupção do mundo. Outro sorteio nem pensar, há pelo menos 8 mãos no Supremo sem autoridade moral para herdar a ação penal. Se a outra opção é entregar o caso a um novo ministro indicado por um dos investigados, acredito que só resta a Cármen Lúcia entregar o processo ao ministro revisor, Roberto Barroso. Essa é a situação dramática em que a queda do avião com o ministro Teori Zavascki nos colocou. Existe, porém, outro mundo ainda mais complicado, que é o das conspirações. A queda na água durante um pouso em condições extremas deixa como praticamente única possibilidade de tramoia um amalucado suicídio combinado com o piloto. Apesar disso, não demorou 24 horas para que as mais estapafúrdias teorias surgissem na internet. Previsivelmente, tudo é culpa de Lula ou de seus opostos, ou ainda da soma de todos numa improvável máfia geral internacional. Teorias conspiratórias existem desde os papiros, mas agora não só se espalham com vírus como citam supostas fontes especializadas. Não que as fontes de notícias duvidosas não já existissem, é que antes as fontes seguras dominavam. Agora, segundo um estudo da Reuters, para incríveis 72% dos brasileiros, as redes sociais são a fonte de notícias. Todos devem lembrar do tempo em que quem se informava pelos grandes veículos da imprensa (Globo, Veja, Folha) era taxado como um inocente manipulado. Alguns intelectuais enxergavam na grande mídia uma Matrix de dominação cerebral. Muitos chegavam a sentenciar que não havia um único veículo confiável sequer, sem, contudo, dizer se seria então melhor ficar na total ignorância. Em poucos anos, porém, a humanidade conseguiu criar algo muito pior que qualquer das opções anteriores. Redes onde a mentira deslavada se propaga como uma doença e onde não há absolutamente nenhuma regulação. A Alemanha tentou um contra-ataque, prometeu multar o Facebook em 500 mil dólares para cada notícia explicitamente falsa que não for retirada. Se o nosso futuro vai depender somente do filtro próprio de empresas que aceitam censurar conteúdos para poder obter mais lucros na China, só posso pedir que Deus nos ajude.