Opinião
NOITES DA PADROEIRA
Quando eu era pequeno, a maior festa de Murici, festa mesmo, era a de Nossa Senhora da Graça, entre o final de janeiro e o começo de fevereiro. O Natal tinha lá sua importância, claro, já que não poderia passar em branco o nascimento do Menino-Deus, com a lapinha armada pelo Padre Geraldo na porta da igreja e um anjo bem educado que balançava a cabeça, em sinal de agradecimento, quando depositávamos em suas mãos postas uma moedinha qualquer. Mas para nós, muricienses, os ritos natalinos eram principalmente o sinal de que a festa da padroeira já se aproximava, com os homens pintando as suas casas e as mulheres tratando de comprar peças de pano na loja de Seu Maninho Toledo para encomendar às costureiras os vestidos novos que seriam estreados na missa solene das nove da manhã. O primeiro sinal era a entrada da festa, construída quase em frente à minha casa, na esquina da ponte. Pintada de azul e branco, era ornamentada com dezenas de lâmpadas coloridas que Seu João Eletricista colocava uma a uma, cuidadosamente, até que o conjunto estivesse pronto para o espetáculo noturno que me encantava de verdade. As luzes piscavam numa sincronia perfeita, combinando com a frente da matriz também toda iluminada e transformando a minha rua, tão pequena e tão insossa, no trecho mais importante da cidade. Depois vinha o parque de diversão, que chegava com os seus brinquedos movidos a eletricidade, mais velozes do que os barcos de madeira e as patinhas de lata da família Alexandre e mais emocionantes do que a velha onda de Seu Elias. Os meus olhos de criança brilhavam acompanhando o carrossel, que a minha avó chamava de trivulim, e o meu coração só faltava pular do peito quando a roda-gigante parava com a minha cadeira lá em cima, de onde eu via todos os cantos, da Rua da Floresta até o Campo Grande, com um frio na barriga que confirmava a minha grande aventura. Na praça cheia de gente e repleta de barraquinhas, as maçãs do amor disputavam a minha preferência com os sorvetes de máquina, os churros e os cachorros-quentes de carne moída e legumes servidos em rodelas de pão francês. Os mais velhos preferiam o pão doce acompanhado de caldo de cana, que davam sustância para assistir às apresentações musicais até a madrugada. Algodão-doce azul e rosa, milho verde assado na hora, pirulito de mel no tabuleiro furadinho e pipoca quentinha do Mané ? uma profusão de cores, de cheiros, de imagens e de sabores que até hoje me enchem a boca d?água e tocam em minha alma como se fossem uma carícia dos céus.