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Opinião

O MANUAL DA �LTIMA VIAGEM

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Tenho pensado, ultimamente, que mesmo experiente e velho, tendo aprendido tanto com o passar dos anos, permaneço assustado com a última viagem que terei que fazer algum dia desses. Não me ensinaram tudo, o alento de uma religião e a salvação oferecida por Cristo precipita-se na fé de cada um. Mas, como posso desfazer as malas, trajar meu andrajo e levar apenas uma moeda para pagar a Caronte sem tremer meus ossos? São perguntas assim que me foram respondidas num encontro com meu sempre professor e Padre João Lemos. Vizinho por longo tempo na Avenida Antônio Cansanção, onde ainda mora. Testemunhei, muitas vezes, suas idas e vindas, as caminhadas na praia, pela manhã, rezando seu terço diário. Casado e pai de uma família linda, cultivou seu voto a Deus como cristão e permaneceu padre na sua essência do que sempre foi. Em sua visita deu-me de presente seu último livro, ?Momentos de Essencialidade?, uma obra que de há muito esperava que me chegasse às mãos. Uma gentilíssima dedicatória completou o prêmio: uma coletânea de poemas de uma sabedoria incalculável. ?Quero te amar Senhor/Pelo que és/E não por medo/De enfrentar o fim/Sem colher o teu perdão.? Mais ainda quando diz: ?Nessa grande travessia/Ainda sou primata/Não sei usar a razão.? O amor e o temor não parecem se adequar a Deus. Quem goza de amor não tem temor. E no momento derradeiro, na travessia nada conta da nossa experiência terrena. Porém, o Professor Lemos vai muito além dessa busca incansável, da verdade final de cada um. Com isso, faz uma recomendação, quase um libelo: ?Quando se aproximar/A hora da verdade/E quando tudo em mim/Já for usado/Nada mais tendo a explorar/Não prorroguem minha inutilidade.? Com apenas um verso ele deixa, claramente, sua decisão sobre o seu destino. Quem pode duvidar? Quem pode negar o seu direito de ir? É uma viagem solitária como, ele próprio assevera, noutro verso. ?Morro enquanto as coisas/Vão morrendo ao meu redor/Sentirei todas as perdas/Sem nunca sentir a minha.? Lemos é um homem que diz: ?Só a dois passos/Eu estou do fim/Dessa curta caminhada/E não me expus/absolutamente em nada.? Verdade que só quem o conhece sabe da retidão de vida que levou e hoje ainda se considera um novel viajante, inexperiente com o desconhecido, mesmo um teólogo de uma fé inabalável. Por isso, o seu livro ?Momentos de Essencialidade? é um mergulho em águas desconhecidas. É o receio de emergir sem concluir a travessia. É a verdade na sua intimidade sem nenhum sofisma.

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