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A PRESEN�A DE N�CIA

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O tempo cumpriu a sua promessa. No que fez pouco, mais uma vez, da soberba da ciência daqueles que, por só acreditarem na física e só venerarem a matemática, negam-lhe realidade absoluta, como se o contingente fosse uma simples miragem. Bem como da embriaguez da vaidade que nos enfia a ilusão da eternidade, a ponto de nos esquecermos de que, logo mais, quando muito só seremos uma lembrança ou até um mero registro em uma lápide ou nos assentamentos cartorários. E nisso lá foi o tempo roendo, pouco a pouco, a força vital e as esperanças e os sonho de Tia Nícia. Tal e qual o faz com cada um de nós. A ponto de nesse 29 de janeiro, sem hora marcada, finalmente entupir-lhe o fôlego e convertê-la em doída porém não amarga recordação. Ainda bem que nos embalou a infância, amparou-nos a juventude e nos socorreu nas nossas romarias rumo à maturidade. E foi incansável nos amparando nas dúvidas, alumiando nas buscas, acudindo nos prantos, compartilhando os sorrisos. Presença dadivosa, enfim, que nos ensinou a viver e nos ajudou a amadurecer. Deve ter tido as suas as suas mágoas, o que fala do nosso compromisso com o destino nem sempre benevolente, se é que existe destino. Mas nunca lhe faltou o lume da esperança. Também, certamente, por vezes mastigou a pílula avinagrada da perda e da solidão. Mas nunca se desarmou do fúlgido sentimento da solidariedade. Da mesma forma encarou a sina do pertencimento pelas amarras do sangue. E nisso entro eu. Mas não se omitiu quanto à amplificação afetiva do seu mundo, acolhendo de braços abertos aqueles que a abraçaram pelo carinho, fidelizando-lhes, pelo o afeto, a devoção de irmã, de mãe, de tia, de avó e de bisavó. Nem vou remontar as histórias das suas idas a Penedo, nem do violino com que mimou-me, em um certo Natal. Morrerei a lhe dever uma única arcada. Pior para mim, até porque ela nunca me cobrou nada, nem mesmo quanto a isso. Tenho muito mais a dever por sua solicitude, por seus incentivos, por seu arrimo protetor. É claro que ela fará falta. E muita e não somente a mim. Mesmo porque há mentira no dizer que ninguém é insubstituível. Muito pelo contrário, não há quem possa ser substituído e muito menos ela. Mesmo porque ninguém é tão só um comparecimento físico, um número, mas uma identidade mental, psicológica e sentimental que não conhece parelha. Tia Nícia é insubstituível, portanto, como todos os outros. Só que, no caso dela, também pela doação, pela ternura, pela palavra doce, pelas advertências ensopadas de humanidade. Foi daquelas pessoas que, sem nunca se desfazerem da esperança, até aparentemente se anulam para permitir e estimular o crescimento dos que lhes cruzam o caminho. Não alimentarei pieguice, contudo, nem prantearei contra o seu encantamento. Vejo que ela foi o que foi e que a sua presença, para quantos com ela partilharam a vida, veio como um prêmio que nem sei o que fiz para merecê-lo. Lamento, isso sim, pelos que virão, já que não terão a felicidade de lhe beber da sabedoria e da prudência, de colher o seu olhar compassivo, de sorrir com ela os seus sorrisos, de gozar dos seus afagos maternais, de escutar a sua voz de fada madrinha. Tenho comigo que é verdade que a força da presença assanha a consciência. Mas não é menos verdade que a ausência não desmonta a memória. Que fique, pois, a sua abençoada memória, para que ela se perpetue em nós e nos que já chegaram e engatinham na vida, bem assim naqueles que haverão de vir. Ponta Verde, 29 de janeiro de 2017

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