Opinião
ESP�RITO SANTO
Alexander Soljenitsin, em certo momento do seu discurso proferido ao recebimento do Prêmio Nobel de literatura em 1972, afirmou: ?A violência não existe e não pode existir por si só; ela está invariavelmente entrelaçada com a mentira?. Soljenitsin tinha sido impiedosamente perseguido pelo regime estalinista, passando anos preso na gélida Sibéria (experiência relatada em obras como Arquipélago Gulag) somente por ser um ativo dissidente do regime soviético. O horror atualmente vivenciado pela população do Espírito Santo é a própria expressão prática daquele discurso: com o motim da Polícia Militar, as ruas de Vitória e suas principais cidades passaram a assemelhar-se à Síria, que vive em permanente estado de guerra. O fato de a lei não permitir a greve de policiais militares, na prática, não significa que será cumprida ou mantida. Essa situação ocorreu vários anos em vésperas de carnavais em Pernambuco, e também em Alagoas anos atrás, também na mesma época. Só a ameaça dessa greve já causa pânico na população. É preciso urgentemente mudanças na lei para especificar qual o padrão adotado em caso de greve de funcionários públicos de serviços considerados essenciais. É preciso ter regra explícita. No caso das Polícias Militares em greve, a fundamental hierarquia deixa de existir. Mas faz-se necessário também observar as condições de trabalho dessa tropa. Por exemplo: um plano de carreira para os soldados. Alguns estados pagam baixos salários, exigem carga horária pequena, dando espaço para os ?bicos?, que complementam suas rendas. Mas em época de crise econômica, gigantesca e cruel recessão, eles têm emprego estável e aposentam-se mais cedo. O Espírito Santo tornou-se conhecido como um estado que obedecia à Lei de Responsabilidade Fiscal. Existem condições financeiras para atender à essa demanda? E as outras categorias? As Forças Armadas terão como substituir as Polícias Militares, caso essas greves se proliferem pelo País? Ocorreram crescimento e custo demasiados da máquina pública nos anos do governo passado, mesmo assim os serviços públicos no País, com algumas exceções, não atendem às necessidades dos que a mantêm com seus impostos, uma das maiores cargas tributárias do mundo. Houve privilegiada desigualdade na distribuição das benesses públicas a algumas corporações. Eis aí uma hercúlea tarefa a pedir homens com verdadeiro espírito público, eles estão disponíveis e dispostos a enfrentar a magnitude desse desafio?