Opinião
Graciliano
EDUARDO BOMFIM * Ressurge com toda a força o estudo sobre o valor da obra do escritor Graciliano Ramos. São artigos de jornal, ensaios, teses acadêmicas, cadernos de literatura, etc. Ressalta-se a integridade do intelectual, o rigor artesanal da sua escrita. Dele destacam a frase de que a palavra não existe para brilhar, mas para ser dita ou escrita. O regionalismo que assume caráter universal e de crítica social. A apreciação minuciosa do sistema econômico atrasado e sufocante do Nordeste, e em particular de Alagoas, como laboratório da sua produção artística. O realismo dos personagens, inspirados, a maioria, em tipos conhecidos e identificáveis da nossa província. Os arquivos, kafkanianos, dos órgãos de polícia política, recentemente abertos ao conhecimento do público, mostram a atuação abnegada do comunista. Uma militância de caráter cultural, porém sem concessões panfletárias ou que desvirtuasse a integridade psicológica e existencial dos seus personagens. Graciliano foi preso, acusado de participação em atividades de caráter antiimperialista e reformadora, através da ?Aliança Nacional Libertadora?. Movimento de ampla frente, que extrapolava em muito a presença dos membros do Partido Comunista, e um programa que defendia profundas reformas sociais. Muitas delas permanecem atuais como a reforma agrária e a necessidade de um projeto nacional soberano, sem a tutela dos interesses das grandes potências econômicas hegemônicas, em particular, dos EUA. A sua participação, ativa, orgânica, na ANL, jamais foi comprovada. Mas a verdade é que foi preso após a insurreição sob o comando dos comunistas em 1935. Este movimento armado foi motivo, posteriormente, de uma profunda autocrítica por parte do Partido Comunista, pela sua precipitação e inconsistência, cuja principal conseqüência foi uma furibunda repressão ao movimento democrático brasileiro. E daí o subseqüente desmantelamento de um poderoso movimento de massas, que congregava pessoas das mais diversas camadas da sociedade. O resultado foi a perseguição implacável, além da prisão de dezenas de milhares de pessoas em todo o País e, dentre elas, Graciliano Ramos. Na época, exercendo aqui em Alagoas a função do que seria hoje a de secretário de Estado de Educação. A verdade é que em todos os períodos de perseguição política, ideológica, surge inevitavelmente a vingança dos desafetos, dos carreiristas desesperados, dos picaretas de todas as estirpes. A institucionalização do instrumento generalizado da delação como maneira de substituir a competência profissional. Além dessas aberrações humanas, emerge, sem pudor, o famoso ?mal secreto?, aquele inconfessável, a inveja. O sujeito pode declarar a gula, a luxúria, o ódio despropositado, mas é muito raro alguém que tenha confessado a inveja como a causa motora de uma atitude imoral ou criminosa contra um semelhante. Seja lá como for, a prisão de Graciliano Ramos deveu-se à sua posição política, ao seu inconformismo diante das estruturas econômicas e sociais injustas que presenciava. O coronelismo, o mandonismo, determinantes, principalmente no Nordeste e particularmente em Alagoas. Um outro episódio bem mais violento aconteceu recentemente, em julho de 1973, com a prisão seguida de torturas e perseguições de toda a ordem, em nosso Estado. A fúria que se abateu contra líderes estudantis, profissionais liberais e intelectuais, no contexto da ditadura militar que imperava no Brasil. Que aliás, está por merecer uma crônica histórica ou um texto literário. Neste caso, reproduziram-se circunstâncias assemelhadas à prisão de Graciliano. A fulanização da prisão do mestre Graça é útil como estudo antropológico, precisão literária ou mesmo histórica. Mas temo que também se preste à absolvição das elites da época, diante da conivência ou participação ativa nos acontecimentos. Muitos foram presos, mas é a figura, cada vez mais presente, de um escritor universalmente famoso que incomoda. Ou como afirma Gasset y Ortega: o passado é o natural do homem que volta a galope. O passado não existe mais, e não se deu ao trabalho para ser negado, mas para ser integrado. É isso aí. (*) É ADVOGADO