Opinião
TRISTE COM�DIA
O fanatismo leva pessoas a situações vexatórias de irracionalidade e completa cegueira. Pode levar igualmente à prática da violência fundamentada na intolerância contra opiniões opostas às suas radicais convicções. Crenças nas verdades absolutas em que não há espaço para contestações criam ambiente propício para conflitos de graves proporções. O carisma de líderes populistas tem esse poder avassalador de fanatizar multidões com ênfase para religiões e política. A exploração da ignorância popular é o x da questão. Pelos idos dos anos de 1880/1900, o Pe. Cícero Romão Batista transformou-se num mito idolatrado por algumas centenas de beatas no povoado Juazeiro do Norte. Oitenta e três anos depois da sua morte, multidões de fiéis continuam lhe rendendo culto por acreditarem nos poderes milagrosos do padre. Tudo começou com Maria de Araújo, uma mulher simples, muito pobre e fragilizada de saúde que ao receber a Eucaristia, a hóstia se transformava em sangue, avermelhando sua boca e até escorrendo pelos cantos. Para Cícero, o fenômeno era, sim, milagre. A beata transformava a partícula consagrada no verdadeiro sangue de Jesus Cristo. Para o povo, surgia um santo milagroso no sertão do Ceará. Pela convicção dos seus poderes como instrumento de Deus, o padre contrariou os princípios da Igreja Católica até o seu completo banimento pela excomunhão, hoje em processo de reabilitação. Em Canudos, na Bahia, o beato também conhecido como profeta, Antônio Conselheiro, seguido por milhares de miseráveis sertanejos, prometia ressurreição aos guerreiros que lhe fossem leais e morressem em combate. Alguém falou outrora que ?o fanatismo pode definir-se como a paixão insana de servir a uma ideia, a uma causa, a um partido, a uma seita ou facção. Fanático é um arremedo de místico que se julga inspirado por verdades de ordem superior?. Fiéis das novas igrejas ditas evangélicas são a maior prova da fraqueza emocional de milhares de pessoas que acreditam nos milagres de seus pastores chegando ao extremo de doarem o que não têm enriquecendo ainda mais o patrimônio dos seus líderes espirituais. Surpreso com o passamento da D. Marisa Letícia, acompanhei pela mídia, assim como milhões de brasileiros, alguns momentos de dor da família e amigos. Chamou-me a atenção a fala do seu marido à beira da urna funerária! O que parecia uma despedida naturalmente carregada de emoção e lágrimas me deixou pasmo ao ouvir longo discurso com conotação política. Quase um lançamento de candidatura em plenas exéquias da finada. Fez-me lembrar dos comícios da Dilma nos estertores do seu mandato no Palácio do Planalto, ovacionada pela fanática militância em histeria. Aplausos para o líder Lula, ataques odiosos aos desafetos, gritos de guerra e o tradicional ?guerreiro do povo brasileiro?. Uma triste comédia num momento muito impróprio! Tem horas que é preciso esquecer as ideias, a paixão alucinada pelo ídolo e mudar de assunto. Até mesmo quando o fantasma do medo nos assombra ao ver o mito desmoronando.