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Opinião

COM M�SICA E SEM PRECONCEITOS

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Ano era 1906, e Hermes da Fonseca assumira provisoriamente o governo quando recebeu a visita do ministro alemão Von Reichau e sua delegação. A Banda do Exército recepcionou a comitiva executando marchas e dobrados. No final da apresentação o ministro alemão pediu ao maestro que tocasse alguma música tipicamente brasileira. A batuta do regente passou a comandar o maior sucesso do carnaval daquele ano, o maxixe ?Vem cá mulata? de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre. A alegria incontida do ministro e de sua delegação germânica demonstradas depois da execução do maxixe não impediu que a raiva tomasse conta de Hermes da Fonseca, fazendo-o baixar, dias depois, uma portaria proibindo as bandas militares de tocar qualquer maxixe. Depois de ?substituir? Washington Luiz, Getúlio Vargas ficou à frente do governo provisório. Seus primeiros atos ?revolucionários? foram suspender a Constituição e fechar o Congresso. Ainda destituiu uma penca de governadores por interventores, quase todos egressos do Movimento Tenentista. Lamartine Babo e Raul Valença declararam-se ?tenentes interventores? para conquistar o coração da mulata e lançaram ?O teu cabelo não nega?, maior sucesso do carnaval daquele ano. Um exemplo histórico sobre a ineficácia de restrições ou imposições à interpretação de músicas para o consumo público ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial na França, derrotada e ocupada pelos nazistas. Artistas e músicos judeus, perseguidos, perderam seus empregos nas orquestras e outras atividades culturais, e somaram-se às vítimas do Holocausto. A Marselhesa foi proibida de ser interpretada terminantemente. Mas, vencida a guerra nas armas, faltava conquistar o coração francês através do apelo cultural e os músicos franceses conseguiram trabalhar. Os maiores nomes da ?Chanson? francesa daquela época, Édith Piaf e Maurice Chevalier fizeram apresentações para os soldados franceses prisioneiros em campos de concentração na Alemanha. Donos de um soberbo patrimônio musical, Bach, Beethoven, Handel, bandas alemãs se revezavam e promoviam concertos gratuitos diariamente nas escadarias da Ópera, sempre assistidos por multidões. A maioria dos franceses que assistiu às magníficas apresentações não se tornou colaboracionista, mas muitos deles deram o seu sangue e fizeram parte da Resistência Francesa, que enfrentou sozinha as tropas de ocupação. Abominamos qualquer preconceito, mas os nossos clássicos populares fazem parte da nossa memória afetiva, e sobreviverão. E existem problemas nacionais muito mais graves para gastarmos as nossas energias.

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