Opinião
Voyeur p�s-moderno
RONALD MENDONÇA * Escudo-me nos estudiosos da psicologia para dizer que o voyeurismo nasce da curiosidade infantil de saber o que fazem os pais quando estão fechados em seus quartos. Aos que argumentam que isso é coisa de burguês porque uma faixa da população mora em vão único, o que tornaria dispensável o esforço de tentar alcançar uma fechadura, lembro que o buraco da fechadura ou a brecha da porta são meros acessórios. O fundamental é a emoção do bisbilhotar. Assim, um dia todos fomos voyeurs. Iludem-se os que julgam que o voyeurismo seria apenas coisa de criança - ou de anormais - e que estaria morto e sepultado nas mentes e corações de nós outros. Travestido, ele aparece nas nossas atividades diárias, principalmente profissionais. Pode-se dizer que de Sócrates a Antônio Carlos Magalhães, passando por Pasteur, Freud e Einistein, todos, a seu modo, exerceram, ou exercem, magistrais formas de voyeurismo. É notável o binômio voyeurismo-medicina. Em 110 anos, em termos de imagem, passou-se das simples radiografias às ? hoje ? banalizadas visualizações da intimidade do nosso corpo. Conta-se nos dedos os órgãos a salvo da ?sanha voyeurista? dos médicos. O que são, na essência, padres, psicanalistas, advogados, policiais se não saudáveis voyeurs especializados em tentar escancarar os segredos do pecado, da doença, do delito? Quem pode ser mais voyeur do que jornalistas, espiões, detetives particulares, fotógrafos? Evidente que o voyeurismo clássico, in natura, do adulto, não acabou. Se hoje brechar os namoros apimentados das vizinhas e/ou munir-se de binóculos buscando emoções nas poses descuidadas das banhistas parecem coisas de museu, uma supermoderna parafernália tecnológica está à disposição dos cultores do voyeurismo. Do grampo telefônico à câmera escondida. Tendo na outra vertente a ascensão do exibicionismo, a grande verdade é que boa parte do mundo resolveu conspirar em favor do voyeurismo e transformar o planeta num imenso santuário a ele dedicado. Manter-se indiferente às saborosas fotos das bancas de revista e dos outdoors, por exemplo, é tarefa para Santo Agostinho. A grande dificuldade é identificar o ?ponto de viragem?, as fronteiras entre o permitido e o proibido. Singular seria o caso do político baiano ACM, aparentemente um aficionado dessa arte. Depois dos espasmos de prazer pela violação da urna eletrônica do Senado, foi obrigado a renunciar ao mandato para não ser cassado. Agora, reeleito senador, faz questão de deixar suas pegadas em escutas telefônicas bandidas. Tudo indica ser esse o protótipo do voyeurismo pós-moderno. Não só goza-se invadindo a intimidade alheia, mas pretende-se ter as vítimas nas mãos. ( *) MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL