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MARCOS DAVI MELO * Aquele homem pequeno e magro, já passado dos 60, apareceu-me vestindo paletó e gravata. Ansioso, vinha de um respeitado colega que tudo tentara, dentro da sua especialidade, para vencer o câncer no nariz que o acometera. Ao seu lado, solidária, o animando, a sua mulher. Retornara fazia pouco tempo a Maceió. Assumira muito jovem o serviço de radioterapia da Santa Casa, onde a diferença maior em relação a hoje, eram os equipamentos. Era uma medicina infinitamente mais simples e mais barata que a atual. Os pacientes e seus problemas eram semelhantes. Foi assim que conheci Carlos Moliterno. Felizmente, o seu tratamento logrou êxito. A partir dali, agraciou-me com o melhor das suas atenções e de sua amizade. Despachando diariamente na Academia Alagoana de Letras, desde que foi seu presidente muito tempo, antes de se dirigir à Cooperativa dos Usineiros, onde labutou até quase os seus últimos dias, sempre passava no hospital para um dedo de prosa. Muitos anos após curar-se daquela enfermidade, já na faixa dos 70, foi acometido por um outro câncer, desta vez localizado no pulmão. Submeteu-se à complexa e agressiva cirurgia, quando necessitou ficar recolhido à UTI alguns dias e é inverdade e faz parte do anedotário da província, a alegação de que durante sua estada naquela unidade, uma garrafa de uísque caiu-lhe debaixo do travesseiro. Inegavelmente, apreciava um bom malte escocês. Comedidamente, gostava de tomar uma dose antes do almoço. Não pelo grilhão do vício, mas pela militância na mesma seleta companhia de Vinícius de Moraes, que afirmava ser necessário todo homem estar uma dose a mais. Convivia tanto com o mundo dos livros quanto em memoráveis jornadas litero-recreativo-gastronômicas nos fins de semana na casa dos amigos, de preferência na de Osvaldo Villela, onde a cozinha generosa de dona Dedê lhe oferecia o sururu de capote, a galinha de capoeira, o marisco e o siri de coral, sua preferência culinária. Moliterno era um felino dócil em um corpo de gazela. Poeta e crítico literário consagrado, aliava a bagagem intelectual enciclopédica a qualidades tão amoráveis quanto raras, como a humildade e a candura. Do crescimento de aprendiz de alfaiate a mestre da literatura, não lhe ficaram resquícios de vaidade ou de soberba. Assim como as inevitáveis frustrações da vida não lhe deixaram rancores ou mágoas incontornáveis. Um terceiro e inapelável câncer, uma agressiva leucemia, o levou há cinco anos. Faria hoje, 15 de março, 91 anos. Deixou-nos Anilda Leão, esta mulher emblemática. Participante e companheira, acompanhou-o de perto até os seus últimos e penosos momentos. Superando-se, despediu-se do marido, cantando a Ave Maria de Schubert, enquanto o corpo do marido descia ao túmulo. É uma mulher de fibra e coragem que honra a memória de Moliterno . (*) É MÉDICO

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