Opinião
Mentiras e rumores em rede
Relatores especiais da ONU sobre liberdade de expressão divulgaram uma declaração conjunta afirmando que as ?notícias falsas? (fake news, em inglês), a desinformação e a propaganda representam uma preocupação global. Para os especialistas, a desinformação e a propaganda podem destruir reputações e a privacidade e incitar à violência, discriminação e hostilidade contra certos grupos da sociedade. De fato, nos últimos tempos, o tema fake news ganhou uma grande dimensão, a ponto de o Facebook estar planejando criar medidas para diminuir a quantidade de notícias falsas. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo pulverizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante e ganham aparência de verdade. Ocorre que boa parte dos internautas sofre de ausência de pensamento crítico, por isso não checa a informação antes de compartilhá-la. Não procura outros meios confiáveis de notícia para saber se o que ele leu é real ou não. Mal leu o título, já passa adiante quando se identifica com o tema. Plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras. Grande parte dos factoides é compartilhada por pessoas nas quais os usuários têm confiança, o que aumenta a aparência de legitimidade das histórias. O mais grave é o fato de as pessoas passarem a desconsiderar fatos objetivos para acreditar em boatos, lendas urbanas, notícias sensacionalistas. Tal fenômeno fez a revista The Economist cunhar o termo post-truth, a pós-verdade, circunstância na qual fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. Quando a desinformação é produzida sistematicamente, ela causa dúvida continuada sobre fatos. Gera-se uma desconfiança generalizada e as famosas teorias da conspiração. Em médio prazo, o efeito disso é a polarização. A discussão e o debate dão lugar a uma guerra de surdos e briga de torcidas, com direito a manifestações explícitas de preconceito e intolerância. A preocupação da ONU é oportuna e deve levar a sociedade a uma reflexão sobre o uso das redes sociais. Ao mesmo tempo, é preciso que as empresas desenvolvam meios de combater essas notícias falsas, que muitas vezes trazem consequências graves.