Opinião
NUM PISCAR DE OLHOS
Desde que nasceu o meu filho, deixei de pedir aos céus quaisquer bênçãos para mim próprio. Antes mesmo do seu nascimento, para ser mais exato: desde que eu soube que o Luís já estava se formando no ventre da Mara, todas as minhas orações passaram a ser em função dele, pedindo insistentemente a Deus que o trouxesse até nós com perfeita saúde, que o livrasse de todos os males, que o fizesse muito feliz. Como todo pai de verdade, se eu pudesse o pouparia de todas as dores e decepções, o protegeria contra todos os ataques, o defenderia em todos os momentos da sua existência. Daria a minha vida para poupar a sua, se preciso fosse, e sentiria de bom grado em minha pele todas as chicotadas que estivessem reservadas pelo destino para lhe açoitar. Mas o meu amor, ainda que imenso, não é capaz de realizar tamanhos prodígios, e só me resta testemunhar, não sem grande angústia e com certa perplexidade, a sua caminhada célere rumo à fase adulta. Um importante passo inicial foi dado agora, com a sua escolha profissional. Eu, em meus primeiros devaneios, imaginei-o magistrado, fazendo o bem a muitos com a distribuição correta da justiça, dando a cada um o que é seu. Depois, notando-o sem a menor empolgação com os assuntos do direito, desejei vê-lo médico, minorando a dor dos seus semelhantes no sacerdócio da ciência de Hipócrates. Esses eram, contudo, sonhos meus, não dele. E eis que o meu menino ? pois para mim ele continua um menino, malgrado a altura maior do que a minha, a voz grossa e as pernas cabeludas ? decide-se pela engenharia civil e logra ser aprovado no vestibular da Universidade Federal de Pernambuco, uma das mais respeitadas na área escolhida. Daqui a pouco vai morar no Recife, desbravar novos horizontes, fazer novas amizades, descobrir mais sobre si mesmo ? vai aprender a ser gente, como diria minha avó. No meu coração, a alegria e a gratidão trazidas pela conquista se misturam com uma saudade prévia que, doída, já se aninha bem no fundo e me silencia a voz. Ver um filho criar asas é também pôr-se de frente ao nosso próprio envelhecimento. O vôo dele é, de certo modo, o prenúncio do nosso pouso, duas trajetórias distintas que se cruzam nessa extraordinária aventura que é o viver, com todos os desafios, perigos e assombros. Como num piscar de olhos, hoje são dois homens que caminham ombro a ombro, guardando em si, cada qual ao seu modo, a criança que teima em não desaparecer por completo. Jamais estarão sozinhos; o que construíram a quatro mãos sempre lhes deixará fartos de ternura e de cumplicidade.