Opinião
M�o pesada
Na maior parte dos atos promovidos ontem, em todo o Brasil, pelos movimentos sociais, referentes ao Dia Internacional da Mulher, um dos pontos principais da mobilização era um protesto contra o projeto de reforma da Previdência encaminhado ao Congresso pelo presidente Michel Temer. Para as entidades, a proposta é prejudicial a todos os trabalhadores, porém as mulheres serão as mais prejudicadas, especialmente as mais pobres. De fato, embora todos reconheçam a necessidade de mudanças no atual sistema previdenciário brasileiro como forma de garantir sua sensibilidade a longo prazo, não há como negar que o governo pesou a mão ao elaborar o projeto. Caso o texto seja mantido tal qual está, será de 65 anos a idade mínima para a aposentadoria de homens e mulheres, com exigência de, no mínimo, 25 anos de contribuição. Para ter aposentadoria integral (100% da média das contribuições realizadas), serão exigidos 49 anos de contribuição ao INSS. A regra valerá tanto para os trabalhadores do campo e da cidade, servidores públicos ou não. O principal argumento é equilibrar as contas da Previdência, já que as mulheres vivem mais que os homens e, portanto, recebem o benefício por mais tempo, apesar de contribuírem menos. Entretanto, é preciso analisar algumas situações não apenas estatisticamente. Veja-se, por exemplo, a situação das mulheres do campo. Ao igualar a idade de aposentadoria em 65 anos, desconsidera-se o fato de que elas ingressam no trabalho muito jovens, entre 14 e 16 anos, e têm uma expectativa de vida de 72 anos de idade, em média, por causa da jornada de trabalho exaustiva, incluindo a produção no campo, além dos trabalhos domésticos. Dessa forma, para se aposentarem, as mulheres do campo terão de trabalhar dez anos a mais do que o previsto pelas regras atuais. Pegue-se agora o caso das professoras, que vão precisar trabalhar quinze anos a mais do que o previsto nas regras atuais. Na rede privada, a professora que se aposenta aos 25 anos de sala de aula, sem exigência de idade, terá de aguardar os 65 anos e aguentar o desgaste da sala de aula. Todas essas questões precisam ser levadas em conta na hora. Cabe ao Congresso corrigir as distorções e oferecer à nação um texto equilibrado e que não prejudique ainda mais o lado mais fraco.