Opinião
PARA QUE SERVE O CAIXA DOIS?
Com o julgamento da chapa Dilma-Temer e a delação da Odebrecht implicando praticamente toda a fauna política nacional, a grande questão que se coloca é se o caixa dois é crime. Antes, quando um político era flagrado em relações espúrias com empreiteiras, logo se apressava a dizer que recebeu apenas recursos ?devidamente registrado na justiça eleitoral?. Agora, que não dá mais para negar o recebimento de verbas não registradas, avolumam-se no meio político os discursos de que cada coisa é uma coisa. Entrevistas e projetos de lei tentam emplacar, às vezes nas madrugadas, a lógica de que, se o sistema sempre funcionou assim, não havia outra forma de se eleger. Não há dúvida de que é praticamente impossível se eleger no Brasil sem doações privadas, mas isso, diferente do que querem nos fazer pensar, não justifica o caixa dois. Antes que aceitemos todos o papel de bobo reivindicado por Marcelo Odebrecht, eles terão que responder convincentemente à pergunta mais óbvia de todas, se o dinheiro não era fruto de corrupção nem era para enriquecimento ilícito, se era penas para financiar campanhas, por que então não doar tudo no caixa um? Vamos às contas. A Odebrecht distribuiu algo em torno de 100 milhões de reais em doações legais nas eleições majoritárias de 2014, tudo bonitinho e registrado no TSE. Ela também admitiu ter repassado algo em torno de 300 milhões em caixa dois. A pergunta é, por que, então, não doar os 400 milhões em caixa um? Bem, existe um limite para doações eleitorais. Naquela época, cada empresa só podia doar, no máximo, 2% de sua renda anual bruta. Segundo a aritmética mais banal, isso significa que a Odebrecht só teria que se limitar a 100 milhões de doações legais se sua receita em 2014 fosse de 5 bilhões. Agora segurem-se na cadeira, pois vou revelar o faturamento da Odebrecht em 2014. Segundo o site da própria empresa, o valor foi de 107 bilhões! Não tenha vergonha de ler novamente, eu tive que ler umas 10 vezes em várias fontes diferentes para acreditar nesse número. No julgamento do Mensalão, a linha mestra da defesa dos acusados foi justamente que caixa dois, por si só, não era crime, era apenas o modus operandi como as eleições funcionavam no País. O Supremo da época rejeitou esse atentado contra a lógica. Quatro dos cinco ministros da segunda turma, que julgará o Petrolão, votaram no mensalão. Será que eles mudaram de ideia?