Opinião
Pais brigam e...
MILTON HÊNIO * Os pais brigam e os filhos sofrem. É verdade. Não há como fugir dessa situação. Fico preocupado quando vejo que a economia brasileira vai apertando o cinto do cidadão a cada dia do ano e, por tabela, as crianças são as grandes vítimas dessa situação. É que o chefe da casa perde o seu humor, fica irritado e agressivo quando os obstáculos surgem em decorrência dos compromissos que não foram cumpridos. E começam as brigas entre o casal na frente dos filhos, por motivos até ridículos. Vejo no meu consultório, com grande freqüência, crianças com sintomas orgânicos, como: vômitos, dores no estômago, sensação de tontura, sudorese fácil, sem nenhuma doença responsável ? apenas problemas emocionais, em decorrência do ambiente da casa. É que a criança é um ser de muita sensibilidade e sofre profundamente quando assiste ou escuta as pessoas a quem ela ama, se agredirem mutuamente. O casal briga e nem sempre consegue brigar em particular, longe dos olhares dos filhos. Alguns chegam mesmo à agressão física; outros se ofendem com palavras; e há os que brigam sem proferir palavras, ficando indiferentes um ao outro. As crianças, mesmo as pequenas, percebem o clima de tensão e de desarmonia no ambiente do lar. Dizia Dostoievski que ?quem acumula agradáveis recordações da infância está salvo para sempre. Ao contrário, carrega um verdadeiro pesadelo pelos dias afora se essa infância foi tumultuada?. Mais do que desavenças cotidianas, pais que brigam a toda hora costumam ter problemas graves escondidos no ?fundo da gaveta?. Às vezes são questões tolas, mas que servem de pretexto para uma discussão. Nem sequer percebem como tudo começou. Pode ser até uma besteira (um atraso para o almoço, a chave que não foi encontrada, uma camisa sem botão). E lá vem briga. A situação é tão estressante que muitas crianças acabam não agüentando e querem ir morar com os avós. Freud dizia ?que não existe na infância uma necessidade tão grande como a proteção do pai?. A personalidade de uma criança é colorida pela atmosfera do lar. Diz o escritor Pisano: ?um lar é muito mais que uma casa... dialogar é muito mais que contar o que se passa conosco... reunir-se é muito mais que estar juntos... companhia é muito mais que emprestar coisas... viver feliz é muito mais que apenas conviver?. Se aceitamos nossos filhos devemos acompanhá-los, tirando todos os momentos que possam atrapalhar o seu futuro. Psiquiatras e psicólogos perceberam, há muito tempo, que a maior parte das crianças violentas são filhos de casais que brigam muito, de paisque gritam e agridem. Assim, os pais devem acompanhar os filhos em busca de uma mesma estrela ? a felicidade. Guy Jacquin já dizia: ?se desejamos que esta criança suba para o céu em linha reta como a palmeira de nossas montanhas, sejamos nós mesmos escrupulosamente retos e leais. Que nossa lei moral coincida com a dela e que o nosso caminho não seja sinuoso e escorregadio. Com a criança só há uma estrada possível: a mais justa e a mais reta?. A luz do sol é para as flores o mesmo que o carinho dos pais para os filhos. Com certeza não passa de um breve gesto, mas distribuído ao longo da infância faz um bem imenso. (*) É MÉDICO [email protected]