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Opinião

VIDA QUE CORRE

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Há bem pouco tempo eu ia ao cemitério para enterrar os avós dos meus amigos, velhinhos que haviam encerrado a sua caminhada tranquilamente, no desenlace natural de uma vida plenamente aproveitada. Depois comecei a ir para o sepultamento dos seus pais, pessoas com as quais eu tinha convivido de perto, homens e mulheres que eu tinha conhecido fortes e produtivos e que sem aviso prévio cerraram os olhos para sempre, quando tanto ainda tinham para nos ensinar. E chegou finalmente, mais de repente ainda, essa hora tristíssima de comparecer ao enterro dos amigos da minha geração, daqueles que correram descalços comigo pelas ruas de Murici, daqueles que estudaram comigo em Maceió, no Marista, no Guido e na Ufal. Fiz essa constatação no mês passado, no velório de Marêncio Ediel Lima de Albuquerque, contemporâneo meu do curso de Direito, prematuramente vitimado por um AVC aos quarenta e poucos anos de idade. É interessante como, a partir do outro, vamos tomando consciência do correr da nossa própria existência. Mesmo com a queda veloz dos cabelos, e o embranquecimento dos poucos que teimam em permanecer na nossa cabeça, quando olhamos no espelho parece que ainda vemos a criança de ontem, perdida em algum lugar das nossas retinas já cansadas. Em meio a rugas de expressão e à pele flácida do rosto, é como se ainda se revelasse ? somente aos nossos olhos ? o menino que um dia fomos, gritando para não deixarmos morrer os sonhos que ele acalentou em seus desejos mais profundos. Mas quando olhamos para os que caminham ao nosso lado, parentes e amigos, essa ilusão logo se desfaz, e a realidade impõe-nos a sua presença impiedosa: ?Como fulano envelheceu?; pensamos com os nossos botões, ?como sicrana está acabada?, lamentamos em nosso íntimo ? e certamente causamos nos contemporâneos que nos veem essa mesma perplexidade, em maior ou menor grau. A pouco mais de um mês dos meus 47 anos, tenho a consciência de que já possuo mais tempo vivido do que tempo a viver. No embornal fictício onde carrego o que amealhei até agora, há mais passado do que futuro; é o ritmo natural das coisas, e não há nisso nada de extraordinário. A vida não é uma equação matemática, um cálculo aritmético cujo resultado é sempre idêntico e previsível. Viver é impreciso, já nos dissera o vate português, e é nessa imprecisão que haveremos de navegar mar adentro, ora em meio a borrascas e tempestades, ora usufruindo da leve brisa das manhãs ensolaradas. A frase de Heloísa Capelas é verdadeiramente sábia: ?O que sei é que nasci e vou morrer. Nesse intervalo, posso amar?.

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