Opinião
HORA DE DESPERTAR
Trabalhadora rural, dona Severina foi diagnosticada, após uma convulsão, com uma patologia cerebral. Enquanto não fosse submetida a uma neurocirurgia, correria risco de vida. Vários enfermos na mesma situação esperam em uma lista. A absoluta precariedade do SUS só permite operar um paciente por semana. Alguns dão sorte, dá tempo, outros morrem antes que chegue a sua vez. Dona Severina estava com a cirurgia marcada para a sexta, mas recebeu um telefonema adiando o procedimento para a semana seguinte. No sábado, seu corpo se tremeu mais uma vez. Parou de respirar. Morreu. Processou o hospital. A investigação apontou que o diretor dr. Nepomuceno, furou a fila e colocou outra paciente no lugar de Severina, para atender ao pedido de um político, o mesmo que o tinha nomeado diretor. O caso cai nas mãos de um magistrado recém empossado. Em seu primeiro dia no tribunal, ele brava com fervor a sentença condenatória, fundamentada não só em leis, mas em princípios éticos que vão dos antigos filósofos até Gilberto Freyre. Impõem a pena máxima. O tribunal segue sua rotina. Entra o segundo caso. Dona Quitéria também morreu na mesma fila. Também teve sua cirurgia adiada, dessa vez, pelo dr. Tadeu, responsável pela ouvidoria. Ele passou outro paciente na frente da dona Quitéria, mas sem nenhum interesse pessoal, fê-lo apenas porque recebeu as queixas do Senhor Nilton, que estava no fim da fila e pediu uma vaga imediata. O jovem juiz faz um discurso ameno, quase de comiseração, tristemente condenando o dr. Tadeu. Afirma, convicto, que mesmo com boa intenção, dr. Tadeu não poderia ter resolvido o problema de um paciente em detrimento da vida do outro. Último caso do dia, entra na sala um rapaz de toga. Ele é acusado de atender à demanda judicial da dona Cícera para ser operada de imediato. O pedido foi deferido, dona Cícera viveu, porém, dona Maria, que teve sua cirurgia adiada por conta disso, faleceu. O jovem magistrado se depara com algo que nunca imaginou, terá que julgar a si mesmo. Acordo do sonho e me vejo na plateia da nomeação dos 12 novos juízes substitutos de Alagoas. Olho para Paula Brito Pontes, alagoana de moral inabalável e que estudou até quase entrar em colapso. Vejo-a assinar o termo de posse, que legitima os novos tempos de meritocracia e renova as esperanças em uma Justiça com visão mais apurada das complexidades da realidade pública.