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Opinião

UMA SANTA SEMANA

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A semana santa, na Murici da minha infância, era um período realmente pleno de penitência, de jejum e de caridade. Da festa de ramos ao domingo da ressurreição, tudo girava em torno da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e minha avó Izarele cuidava para que todos lá em casa entrássemos no clima daqueles dias de luto pelo sofrimento do Salvador. Não se ouvia música, a televisão era escutada bem baixinho, não se falava alto, não se diziam palavrões. Orava-se muito e rezava-se o terço diariamente, meditando nos mistérios dolorosos e pedindo perdão a Deus pelos pecados cometidos. A missa do lava-pés era bonita, solene, homens respeitáveis faziam as vezes dos apóstolos: Milton Cansanção, Biu do Correio, Cícero Calheiros, Luiz Caruaru, Chico Baita, Samuel Vieira, Dácio Aragão. Inúmeras vezes, como coroinha, ajudei Padre Geraldo a imitar o gesto humilde de Jesus, segurando a bacia e a toalha que ele usava para banhar os pés daqueles senhores, pais de muitos amigos meus. No dia seguinte, sexta-feira da Paixão, acordávamos bem cedinho, madrugada ainda, para fazer a caminhada penitencial ao morro do Cruzeiro. Algumas pessoas levavam os seus ex-votos, braços e pernas de madeira ou de barro, para agradecer pela cura de doenças naqueles membros; outras levavam grandes pedras sobre a cabeça, em sinal de mortificação. Logo após voltávamos aliviados para as nossas casas, onde o lauto almoço com peixe no coco, bredo, pirão, sururu e papa de feijão nos induzia ao delicioso pecado da gula, partilhado com os muitos pedintes que batiam à nossa porta para buscar ?o meu jejum?. À tarde, a procissão do Senhor Morto era acompanhada com sincera tristeza, as mulheres vestidas de preto cantando o ?perdão, meu Jesus, perdão Deus de amor; perdão, Deus clemente, perdoai, Senhor?. Era o único dia em que não se celebrava a missa nem repicavam os sinos. Eu tocava a matraca rua acima e rua abaixo, chamando os fiéis para o cortejo, findo o qual a imagem do Cristo ensanguentado ficava até a meia-noite exposta na Igreja matriz, e nós íamos, reverentes, beijar-lhe as chagas, com um profundo sentimento de culpa por toda aquela maldade. No sábado, a mais longa de todas as celebrações eucarísticas, com a angústia que dominava os nossos corações infantis: se o padre não encontrasse ?a aleluia? no grande livro de capa vermelha, o mundo se acabaria ali mesmo. Era um alívio quando, a certa altura da celebração campal, as luzes se acendiam e as velas eram apagadas, na certeza de que a vida vencera a morte e o sacrifício do Cordeiro nos garantira a salvação eterna ? pelo menos até o ano seguinte.

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