Opinião
SEU DOCA, ENFIM, AJUSTA AS VELAS
Amanhã vai chover? O programa de TV diz que sim, mas ele acredita que não. Acha que as nuvens passarão quietas. Será que vai ter vento? Os sites confirmam até uma calmaria, mas aqueles olhos fixos no horizonte atestam que haverá, sim, generosos sopros de Netuno. Eu confiava mais naquele velho marinheiro do que em qualquer previsão tecnológica do tempo. Aliás, ?Seu? Doca era o tempo! Esse dileto cidadão dedicou-se por mais de meio século a cuidar da garagem náutica do Iate Clube Pajuçara, um ofício simples que a sua sabedoria transformou em coisa importante. Entre barcos e velas, aquele corpo franzino transformou-se num amuleto da sorte do local. Enquanto teve forças, manteve a ordem do lugar e cuidou dos amigos como se fossem filhos. Às vezes, apenas para ajudar, chacoalhava a nossa alma com sopros de ensinamento. Uma vez me disse: ?Aonde tem mar tem peixe, viu meu fio??? Com a inocência dos 12 anos, querendo provar ser destemido, fui velejando no meu Optimist até a Boia Cega, lá no alto-mar do Porto de Maceió. Com o minúsculo bote, cambei a vela contornando o marco dos navios da maneira mais perigosa que consegui. Aquilo foi o meu troféu pessoal, um batismo na água. Ele viu de longe e advertiu: ?Faça mais isso não, meu fio?, ali a água é grossa!?. Noutra ocasião, num Hobie Cat 14, encontrei-me tombado e à deriva. Se você acha que foram os havaianos os inventores do Stand Up Paddle?, enganou-se. De longe ele veio remando numa jurássica prancha Windglider. Chegou sorrindo e com um alicate pendurado no pescoço. Cortou um cabo aqui, amarrou outro por ali? e me resgatou. Um monstro de resistência física e da mais incondicional prestabilidade! Na quinta-feira passada (13/4) ele partiu aos 91 anos. Já estava cortejando o cruel nível existencial do ?semiviver enfermiço?. O amável Doca foi, durante décadas, guardião de segredos e bens materiais alheios. Era capaz de vigiar uma simples peça de uma embarcação ou defender a reputação de uma amizade por toda a vida. Um pedacinho de corda que não lhe pertencia era arquivado pra sempre, até que um dia o seu verdadeiro dono viesse buscar. Isso é ética da mais pura que existe! Esse farol da honestidade serviu de terapeuta pra muita gente. Sua conversa animada deixava leve a nossa alma. Além disso, iniciou diversas gerações no velejo, uma atividade que precisa de astúcia para ser assimilada. O mar às vezes borrifa pavor, cospe na nossa hombridade e teima em nos fazer desistir. Acredite: um vento forte pode tornar frouxo o mais viril dos homens. Se batesse medo do mau tempo, aquele velho homem do mar ensinava o jeito mais fácil de encarar as temerosas ondas internas que todos temos. Conto mais uma história desse amigo de exponencial generosidade. Certa vez, a mim e a meu irmão Jorge ele ofereceu o almoço, fruto de uma pesca matinal. Improvisou um fogareiro de brasa e assou largas postas de atum fresquinho. Temperado apenas com sal, limão e farinha (e com várias cervejas geladíssimas!) o delicioso banquete foi servido entre histórias de navios agressivos, âncoras perdidas no útero do oceano e até peixes capturados no dente! As dores do mundo não cabiam naquele rico brasileiro. Meu peito é mar? Que saudade, amigo Doca!