Opinião
Preparemos o nosso futuro
ARGEU PESSOA DE MELLO * Ainda não se desenterraram os mortos de sob os escombros, e puridos dos guerreiros reportam com violência em todo o mundo: chefes de Estado, egoístas e onipotentes, firmaram-se em pontos de vista imutáveis, duros e trágicos como dogmas: a nuvem da intolerância cresce nos horizontes e, mal se fecharam as covas humildes que em centenas de cemitérios espalhados pelo planeta receberam os mortos dos últimos confortos, já os profissionais do massacre, peliando o gozo inefável do sangue de todos e, principalmente da juventude, bebido em taça de ouro, pregaram o desastre: Não sei como chama o que se prepara para neste momento. Desconheço ainda os ?slogans? escolhidos para a propaganda. Não identificamos com precisão o lugar da trama. Mas o coração de todo ser humano é uma antena que capta as mensagens do mundo, e lê-las que nos chegam do pânico e do medo universais, que nos dizem: prepara-se o desastre. Quando espocará, ninguém o sabe direito. Mas o que se sabe é muito claro e doloroso: os açougueiros, neste momento, afiam brilhantes cutelos, que enterrarão amanhã no corpo dos nossos irmãos e dos nossos filhos, na alma das nossas mães e das nossas esposas, ao som dos hinos nacionais de todas as ?partes?, e sob bênção das bandeiras sagradas de todas as nações que os apoiam. O que acontece é muito claro e doloroso: todos morrem e o que é mais delirante, a juventude. Enquanto isso, generais e as hienas famintas, os armamentistas e demais ancalhadores de moedas sujas de sangue, os chefes de Estado, colecionadores de ossos humanos para os panteões nacionais, engendram desastres, deliram de gozo ante a confusão trágica, e morrem na cama. Que valeram os nossos heróis da última guerra? Onde está o que nós convencionamos chamar de inimigos? Somos igualmente induzidos a chamar de inimigos. Que nós, e o inimigo, como seres humanos semelhantes, gente que ama a vida... Dura é a verdade. Dura é a verdade. Dura e indomada. A luz queima como ferro em brasa e cega a sua claridade. Mas como podemos trair os nossos semelhantes, os jovens e as jovens de toda a terra, nós que começamos agora a pisar o planeta, que estamos fazendo incipiente: - Como podemos calar se há forças ocultas, tremendas de astúcia e de malvadez, tramando, através das mentiras nacionais e internacionais, o assalto à espécie humana? Não! Maldito para sempre o que esconder a verdade que não lhe pertence, é de todos. Mil vezes melhor sucumbir incendiado em suas chamas crepitantes e irresistíveis, e ter os olhos corroídos pela intensidade de sua luz, que caminhar sobre o pântano venenoso da mentira, movediço porque embebido de sangue, iluminado como os cemitérios pela enganosa luz dos fogos-fátuos. A verdade que mata é a mesma que ressuscita. Em verdade, o que realmente é a guerra? Quem é que a fez? Por que a forjam, atiçam e realizam? Há uma evidência terrível: isolados nos seus gabinetes, trancados entre quatro paredes, os todo-poderosos e os governos ?infalíveis??, bonecos de um trágico teatro de marionetes, controlados pelos fios de ouro e dos grandes interesses financeiros, eles, alguns, é que fazem a guerra. No entanto, isolados, poderosos, intangíveis, fazem a guerra. Primeiro preparam a opinião pública explorando os mais arraigados sentimentos da singela alma do povo: ??é sagrada?, ?justa?, ?necessária? em ?defesa da ordem? da ?soberania?... etc. (*) É MÉDICO