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UM MICT�RIO DE 3 MILH�ES DE EUROS

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Não podemos dizer que a ruptura com os valores tradicionais da arte seja apenas uma questão conceitual, mas reacionária do ponto de vista econômico. Não é difícil imaginar o volume de dinheiro que circulava nos salões e leilões, no início do século XX, onde tais eventos eram extremamente concorridos, haja vista a produção artística do período que hoje comporta, não só museus europeus como do mundo inteiro. A rejeição da arte, considerada de vanguarda, não dava trégua apenas às artes visuais, mas à literatura, à dança, à música e outras manifestações culturais. Seus participantes, boa parte escritores e poetas, eram, na maioria, marginalizados pela elite dominante. Assim, a partir de 1916 nasceu um movimento que viria a provocar a arte tradicional ocidental, escandalizando, porém, contribuindo para formar novos conceitos de arte, fora dos padrões da sociedade tradicional. A começar pelo novo movimento, conhecido como Dadaísmo, advindo da forma infantil (tratada em inglês) a palavra brinquedo (dada). Essa trupe de desbravadores da nova estética mundial era formada por Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Hans Arp, Julius Evola, Francis Picabia, Max Ernst, Man Ray, Raoul Hausmann, Guillaume Apollinaire, Hugo Ball, Johannes Baader, Arthur Cravan, Jean Crotti, George Grosz, Richard Huelsenbeck, Marcel Janco, Clement Pansaers, Hans Richter, Victor Braune, Kurt Schwitters, Sophie Täuber. Reuniam-se, improvisadamente, em cafés, bares e ali discutiam os novos rumos das artes visuais. Mas, foi no salão da Associação dos Artistas Independentes, que Marcel Duchamp antecipou, pelo menos, 50 anos na História da Arte Contemporânea. Ao expor um mictório, assinado por R. Mutt, um pseudônimo seu, baseado no nome da empresa produtora da peça: J.L. Motta Iron Words Company. A intenção de desmoralizar a exposição passou a ser compreendida como uma intervenção artística, quando um objeto comum é apresentado num contexto diferente, o que passou a ser compreendido como um Ready Made. O mictório colocado numa posição diferente propõe uma reflexão sobre o objeto concorrendo para a fundação da arte conceitual a partir daí. Duchamp deu um tiro à queima-roupa na mais dogmática cultura que, mesmo assim ainda sobrevive, de que a arte é a essência do belo. E, necessariamente, só um aluno de uma Escola de Belas Artes seria capaz de produzir uma obra de arte. A Fonte de Duchamp, ou apenas a cópia teria sido vendida, segundo o The Economist, por 2 milhões e meio de dólares, em 1964, hoje chega aos 3 milhões de Euros e é peça de museu. A luta de Duchamp contra a arte de consumo de uma sociedade elitista e conservadora ainda permanece viva em cada movimento de vanguarda, em cada experimentação artística. No entanto, os domínios do capitalismo e da mídia no mundo têm prevalecido criando os mesmos ícones, transformando a arte em moda e objeto de desejo dos novos ricos do século XXI.

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