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Opinião

O BRASIL QUE OS BRASILEIROS CRIARAM

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A começar pela Carta de Pero Vaz de Caminha, tratada muitas vezes como a certidão de nascimento do Brasil, seu autor interrompeu várias vezes a narrativa para se deslumbrar com as partes íntimas das índias, nuas e depiladas. E se Caminha viu, por que os demais portugueses não viram? Viram, gostaram e a maioria se amasiou e produziu uma bela prole. Deu tão certo esta união que logo todos estavam falando a língua indígena. Inclusive com a ajuda de jesuítas como Padre Anchieta que escreveu gramática, dicionário e ainda pregava na língua nativa. Quem acabou com a festa foi o Marques de Pombal que botou na cabeça de Dom José I, Rei de Portugal que o Brasil estava adquirindo uma identidade própria e que logo o Reino iria perder seu domínio sobre a colônia. E foi assim que hoje falamos um português (por imposição) arranjado de expressões que nunca Portugal aprendeu. Principalmente, após a presença africana cujas etnias trouxeram riquezas culturais, linguística e uma santa miscigenação que hoje é compartilhada pela maior parte dos brasileiros. Para tristeza de Pedro II não temos origem fenícia e nem sabemos se descendemos de Sem, filho de Noé. Tema que o finado Ladislau Neto não gosta de relembrar, afinal ele deu fé a uma falsa escrita fenícia. Mas, essa colcha de retalhos chamada Brasil vai se inventando e reinventando a cada dia. Num país de dimensão continental, ninguém é de uma mesma cor e o português falado possui variáveis deliciosas. Se na Itália as receitas de massas são patrimônio nacional, no Brasil ninguém mantém a originalidade intocável. A começar pela nossa tapioca cuja receita original mesclou-se de sabores exóticos. Igualmente a pizza brasileira, sobretudo a do Bixiga, em São Paulo, onde as variações de ingredientes sobrepuja o gosto italiano. E, finalmente, o Brasil político me faz lembrar as vezes que viajei a São Paulo, onde costumava perguntar aos motoristas de táxi sobre o melhor prefeito da cidade e dava sempre Paulo Maluf. Ficava mais admirado ainda, quando a informação vinha acompanhada da frase: ?...rouba mais faz?. Não seria esta a razão da tolerância de nosso povo em relação aos políticos de forma geral. Fez alguma coisa (geralmente mostrando na mídia) é o suficiente para o perdão de suas fraquezas. Nada que uma nota de 50 reais não faça esquecer no dia da eleição. Outros, não precisam nem esquecer, porque simplesmente não acreditam. Vivemos uma Babel ideológica que mobiliza as hostes e transforma a mentira em verdade e a verdade em mentira. E, é ainda possível que até o final do terceiro milênio metade do nosso idioma já seja o inglês. O Brasil ainda é muito mais.

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