Opinião
SENSA��ES DO ESQUECIDO
Ao entrar na Pinacoteca da Ufal, o visitante desavisado logo fica surpreso com o que vê. ?Do lado de cá, do lado de lá?, mostra individual da artista plástica mineira Eugênia França, em exibição na Pina, é intensa, altamente sensorial e conscientizadora ? arrebata o observador para a realidade de milhares de crianças no Brasil. Há um pensamento bastante conhecido sobre a natureza da estética que diz que o belo é bom e o feio é mau. Esse raciocínio é antigo, mas corriqueiro em nossa sociedade, seja em filmes infantis, com a aparição de bruxas feias e malignas e até mesmo na religião, que expõe demônios como seres horrendos. Eugênia usa dessa lógica dos contrários para mostrar que é possível existir o bom no feio. Isso está presente nas lonas não emolduradas e de aparência suja, agregado aos desenhos sinistros, que causam estranhamento no observador. A obra desperta sensações que só compreendemos após entendermos o que Eugênia quer nos apresentar. A arte é feita em pedaços de lonas de caminhão, reutilizados para criar um apetrecho de significação nas pinturas. Nas telas, crianças seguram bonecas e em outras, só vemos bonecas. As representações das bonecas são as que mais geram dúvida, pois há certas ocasiões em que não conseguimos discernir o que estamos observando ? nesse instante, a pergunta ?mas é uma boneca ou um bebê?? é comum ?, e o questionamento começa nesse momento. Mas, afinal, quem são essas pessoas? Por que as telas possuem esse tom obscuro? Por qual motivo ela quer que confundamos bonecas e crianças? Por que ela pintou em lonas? Nas respostas dessas perguntas, abre-se um mundo de significação, e a partir daí, o espectador imerge na arte e na tentativa de capturar histórias. Em ?Do lado de cá, do lado de lá?, Eugênia França faz crítica à sociedade de consumo, utilizando materiais e técnicas que trazem de volta a dita ?arte feia?. Tudo na exposição possui uma finalidade que, por sua vez, foram exploradas com maestria por Eugênia. A lona que remete às crianças que foram abusadas por caminhoneiros, bonecas descartadas que se confundem com bebês e as meninas com seus brinquedos cumprem com seu propósito ? o de gerar estranhamento. O impacto é o grande trunfo da exposição, pela forma que desperta sensações e questionamentos. A obra nos faz repensar a sociedade de consumo, mostrando as vítimas da desigualdade, esquecidas e descartadas como seus brinquedos. O que Eugênia nos deixa vai muito além de arte, é ensino, conscientização e reflexão.