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M�dico e pai

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ALBERTO ROSTAND LANVERLY * Estou descobrindo que, enquanto nossos pais vivem, eles se erguem entre nós e os percalços da vida, como uma verdadeira muralha de segurança. Quando um deles morre, ficamos um pouco sós, teoricamente seremos os próximos e não haverá ninguém em nossa fila. Foi tudo muito rápido. Um desmaio, ocasionado pelo rompimento de um aneurisma na veia aorta, enquanto, em sua residência, praticava uma de suas atividades prediletas, o radioamadorismo, breves horas na UTI da Santa Casa de Maceió, uma viagem, às pressas, em jatinho fretado, para o Hospital do Coração em São Paulo, onde houve a tentativa de realizar-se um milagre, implantando stenters em seu peito. A morte, o retorno para Maceió e o posterior enterro, no Parque das Flores. Em menos de setenta e duas horas, Alagoas perdia um grande filho, a Medicina, um baluarte, um pensador, um cientista e, acima de tudo, um inovador que fez do setor de radiologia e ultra-sonografia da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, o seu bunker de guerra e criatividade, o seu segundo lar. Naquele posto, fez escola, coordenou equipes, salvou vidas e ampliou seu ciclo de amizades. Homem bom e responsável, como todas as criaturas bem intencionadas, pontificou pelos acertos, em detrimento dos erros. Calmo, educado, fino, era, pode-se dizer, um cidadão à moda antiga, apesar de possuir idéias futuristas e aguerridas, que extrapolavam sua formação profissional, invadindo a física e a engenharia e que, quase sempre, redundavam em descobertas, sempre na expectativa de melhorar a qualidade de vida de seus pacientes. Vários foram os livros que escreveu e as patentes requeridas para suas invenções, fatos que o tornavam respeitado em sua área tecnológica, não somente em nosso Estado, mas em todo o Brasil e até no Exterior. Tive oportunidade de conhecê-lo, como profissional quando, aos quatorze anos, fraturei uma perna jogando futebol e nem de longe imaginei que, uma década após, passaria a ser seu filho, ao me casar com Ana Lúcia, sua primogênita. Nosso convívio foi salutar. Nas férias, em Barra de São Miguel, onde constantemente praticávamos pescaria e nos finais das tardes nos sentávamos à beira mar para olharmos o por do sol e admirarmos a beleza do nascer das estrelas; nas viagens a Garanhuns ou para o Exterior; nas idas a Piaçabuçu, quando revíamos as belezas do São Francisco e ele rememorava o Velho Chico de sua infância. Sempre teve uma palavra de incentivo e de otimismo para todos que circundavam sua periferia. Como que em uma despedida programada, passamos, em família, o último carnaval, em um hotel do litoral sul na cidade de Recife. Conversamos, rimos, nos divertimos e até bebemos seu drink predileto, ?whisky com guaraná?. Jamais, ninguém poderia imaginar que, menos de duas semanas após, estaríamos tão longe fisicamente, tão perto espiritualmente e tão cheios de saudades, embora materializando a idéia de que saudade, em linguagem poética, é o alimento da alma que nos impede de esquecer, fazendo com que constantemente nos recordemos do quanto, juntos, fomos felizes. Meu sogro, meu segundo pai, tendo falecido aos setenta anos de idade, deixou para todos nós, os seus descendentes, como legado, a certeza de que a vida é uma verdadeira arena de lutas. Nos digladiamos diuturnamente com o objetivo de ultrapassarmos e vencermos os combates que se apresentam. A certeza de que ser honesto, trabalhador e coerente é possível, mesmo neste mundo atribulado em que vivemos. Hoje, desmaterializado que está, ele descansa em paz, oferecendo a tantos quantos o estimam e lhe querem bem, a consciência de que foi muito respeitado e amado pelas pessoas que, de alguma forma, privaram do seu circulo de influência e convivência. (*) É ENGENHEIRO

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