Opinião
FAC��ES DA MORTE
O jornalista, político e humorista Barão de Itararé disse, certa feita: ?O Brasil é feito por nós. Precisamos desatar esses nós?. A fina ironia do falso nobre (não foi barão coisa nenhuma, concedeu um título a si próprio como gozação, mas morreu sendo assim chamado) nunca foi tão pertinente. Estamos desatando o nó da corrupção, a partir das chamadas delações premiadas, com um denodo nunca visto, movimentando uma imensa máquina midiática que faz com que a população não discuta outra coisa, não pense em nada mais além da quantia que foi arrancada dos cofres públicos. Parte da Polícia Federal, a quase totalidade do Ministério Público e alguns juízes há algum tempo estão enfurnados em papéis e arquivos de computador, e cada descoberta é motivo para uma operação com nome inusitado (Calicute, Omertá, Sepsis, Carbono 14, Pirro, Catilinárias); a sociedade vibra e corre para os dicionários. Enquanto isso (lembrando os recordatórios das histórias em quadrinhos), algo tenebroso, um nó há muito anunciado, toma conta do Brasil: uma estrutura criminosa tentacular armada e mortal, bem distinta da quadrilha engravatada que roubava milhões usando conversa e caneta. Com aparato bélico e agentes infiltrados nas diversas camadas do poder, organizações como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho (que a imprensa insiste em chamar apenas de facções, como a desdenhar da capacidade de influir no cotidiano do País) espalham-se pelo Brasil semeando terror e morte. A Gazeta de Alagoas trouxe, na edição de terça-feira, 9, matéria em que afirma que nosso Estado é o quarto em contingente do PCC. Não por acaso os números de homicídios e latrocínios dispararam nos últimos meses. Apesar dos dados e das características que apontam para organizações criminosas de atuação nacional, o Governo insiste que o problema é dos governos estaduais. Quando a Operação Mãos Limpas, que inspirou a Lava Jato, foi deflagrada na Itália, no início dos anos 90, alguns juízes já trabalhavam desarticulando organizações poderosas como a Máfia e a Camorra. Alguns pagaram caro, mas não esmoreceram. No Brasil, nenhum promotor ergueu-se ainda para comandar uma cruzada contra as facções. Talvez, porque até o momento, só tenham tombado jovens negros e pobres nesta guerra insana. O PCC e CV entram nos estados, aniquilam as quadrilhas locais e assumem o controle do tráfico de drogas, roubos de automóveis e cargas; espalham propina e têm bons advogados trabalhando para eles. Assim como os grupos de gravata faturam milhões (não na mesma escala) e têm contabilidade e computadores. Mas até agora não foram importunados. Não têm um Moro contra si, têm um muro em torno de si. Dali, bem armados controlam o crime de forma impiedosa. Talvez, quando a sociedade perceber que não pode ficar refém desses soldados do terror, seja tarde demais.