Opinião
Ecos da escravid�o
Oficialmente, o 13 de maio é a data em que foi abolida a escravidão no Brasil, por meio da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, em 1888. Chegava ao fim uma batalha legislativa iniciada na década de 1870. Isabel enfrentou a resistência dos representantes dos proprietários de escravos para levar o projeto de lei à votação. Ao extinguir o regime escravista, o Império perdeu o apoio dos grandes fazendeiras, que eram uma espécie de coluna de sustentação política do governo. Para muitos estudiosos, a Lei Áurea foi resultado de uma grande mobilização nacional da opinião pública, que reuniu políticos, jornalistas, advogados, intelectuais, estudantes e escravos libertos. Entretanto, passados 129 anos, a data ainda é vista com muitas ressalvas pelas entidades que representam o movimento negro, que preferem celebrar o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do principal quilombo do País. A razão é o tratamento dispensado aos ex-escravos. O fato é que os negros ganharam a liberdade, mas não lhes foram dadas condições mínimas para que pudessem se tornar cidadãos plenos. Nem o acesso a um pedaço de terra lhes foi permitido. Por isso, a maioria permaneceu em sua condição subalterna. Essa realidade persiste. A população negra brasileira ainda enfrenta um abismo de desigualdade. Os negros são as maiores vítimas da violência e os que sofrem mais com a pobreza. Têm pouca representatividade nas esferas políticas e renda média muito menor que a dos brancos. Há ainda a questão do preconceito e do racismo, que, no Brasil, geralmente ocorre de forma velada. Mesmo assim, volta e meia a imprensa tem noticiado casos explícitos de discriminação racial. Discussões à parte, o 13 de maio entrou para o calendário da história do País e é uma data muito significativa, mas também deve servir para reflexão. A extinção oficial da escravidão não fez com que ela deixasse de existir no Brasil. A cada ano, milhares de trabalhadores pobres ? negros e brancos ? são recrutados para trabalhar em fazendas, carvoarias, canteiros de obras e oficinas de costura e, posteriormente, submetidos a condições degradantes de serviço ou impedidos de romper a relação com o empregador. Para estes, a Lei Áurea ainda é apenas uma peça de ficção.