Opinião
FAC��ES DA MORTE 2
Deflagrar uma guerra contra as facções criminosas que tomam conta do Brasil vai exigir muito mais do Estado do que até o momento se supõe. Em artigo publicado na semana passada nesta Gazeta de Alagoas, alertamos que o aparato da Polícia Federal, Ministério Público Federal e alguns juízes estão voltados para operações contábeis, desencadeadas pela Operação Lava Jato, enquanto as ruas são inundadas por drogas e sangue vindos das ações de organizações como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho. Não há ainda um enfrentamento por parte do governo, que prefere não encarar o assunto como crime federal, preferindo delegar aos estados a responsabilidade de resistir aos bandidos armados e organizados. Mas eis que um delegado da cidade de Guarulhos, São Paulo, depois de um ano de investigação, resolve, no final da semana passada, desmantelar uma, apenas uma, célula do PCC. Com ajuda do Ministério Público Estadual mobilizou 120 veículos e 180 homens para cumprir 87 mandados judiciais. Resultado: duas pessoas presas (nove já se encontravam na cadeia, o que indica que de dentro dos presídios continuavam comandando o crime), computadores apreendidos e uma pequena quantidade de maconha. Se apenas para arranhar a armadura do Primeiro Comando todo esse aparato foi mobilizado, imagine o que será necessário para dizimar a organização em escala nacional? Ou talvez a atitude quixotesca do delegado sinalize que o País precise sair da letargia e estabelecer uma política de Estado para fazer frente a organizações que há décadas se nutrem, treinam, roubam, matam e corrompem gestando um Estado paralelo que ameaça a todos nós. Inteligentemente, enquanto toma conta do País, o PCC protege os seus. Instala creches em comunidades carentes e chega a pagar transporte para que familiares que moram distante possam visitar parentes nas cadeias. Por intermédio das ?sintonias? (progresso, que cuida da contabilidade, disciplina, que julga e executa quem sai da linha) impõe um ?governo? baseado na força. Em alguns casos, surpreendentemente, como disse o dr. Drauzio Varela, em entrevista recente, o número de homicídios chega a cair em determinadas regiões ? como se os facínoras dissessem ?só nós podemos matar?. E o que fazem as autoridades enquanto isso? Até o momento nada. As leis em vigor parecem não atemorizar os bandidos; o governo federal ainda não contabilizou os prejuízos decorrentes das atividades das organizações (que têm bons advogados trabalhando para elas); e o Ministério Público não viu ainda nenhum proveito midiático em se insurgir contra oponentes com armas nas mãos. Talvez depois de encarcerar corruptos, o Judiciário (aí compreendendo todas as suas instâncias), com ajuda do Legislativo e Executivo, possa dedicar um tostão de atenção para tão grave problema. O controle absoluto de Pablo Escobar sobre a Colômbia durante anos só foi abalado e erradicado depois que os Estados Unidos se envolveram na questão. Não queremos um Trump, ou outro qualquer, nos dizendo o que fazer. Trata-se de uma questão de honra.