Opinião
Cen�rio complexo
Desde a última quarta-feira, quando começaram a vir à tona detalhes da delação premiada dos irmãos Batistas, donos do megafrigorífico JBS, o País vive um momento de grande agitação e choque. A cada minuto, novas revelações vão tornando o quadro ainda mais complexo. Segundo declararam os delatores à Procuradoria-Geral da República, o grupo JBS estima ter gastado nos últimos anos, R$ 500 milhões ? isso mesmo: meio bilhão de reais ? em repasses a políticos; R$ 400 milhões teriam sido de forma oficial e os outros R$ 100 milhões de forma não contabilizada, ou seja, por debaixo do pano. Essa ?generosidade? não fazia distinção ideológica e tinha objetivos bem claros: garantir facilidades para expansão dos negócios. De acordo com os empresários, o total em dinheiro repassado por meio de ?pagamentos dissimulados? alimentou as campanhas de 1.829 candidatos. Destes, 179 se elegeram deputados estaduais em 23 estados e 167, deputados federais. O escândalo atingiu o coração do governo e golpeou também seu principal partido de apoio, o PSDB. Aliás, o fato representa um novo momento na Operação Lava Jato. Até então, a investigação parecia ter apenas o PT como foco principal. O clima é de terra arrasada. Embora a gravação de uma conversa entre Michel Temer e um dos empresários não seja conclusiva em relação ao envolvimento no esquema criminoso, outras acusações foram feitas, e o presidente está muito enfraquecido. Na avaliação dos analistas, será muito difícil juntar os cacos e tocar o governo. Parece claro que o desdobramento do caso dependerá da reação das ruas e do Congresso. Nos bastidores, já se trabalha com um cenário de saída de Temer. Grandes veículos da mídia nacional defendem abertamente sua renúncia. Nesse caso, a Constituição determina que cabe ao Congresso a incumbência de eleger um novo chefe de Estado para completar o mandato. O problema é que o Parlamento também passa por um momento de baixa credibilidade. Dessa forma, o escolhido já assumiria sem contar com a confiança da população. O turbilhão está longe de acabar, pois as revelações continuam. O brasileiro assiste a tudo estupefato, sem saber aonde vai parar. De qualquer forma, as soluções devem ser buscadas na Constituição Federal, sem apelar para atalhos perigosos como em outras épocas de triste memória.