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Opinião

PRETA

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Preta não sabia falar, como é de praxe entre os cães. Corrijo-me, aliás: melhor seria dizer que ela não sabia pronunciar palavras, utilizando-se das cordas vocais para externar as suas ideias mediante o uso de verbos, pronomes e adjetivos como nós, humanos, o fazemos. Mas falar mesmo, no sentido de expressar o que está sentindo, isso ela fazia muito bem, e de maneira absolutamente compreensível, valendo-se dos recursos com que a natureza lhe dotou. Que o diga a sua cauda levantada e vibrante, saudando-me com insuspeita alegria toda vez que eu saltava do carro à porta de casa. E o seu corpinho comprido de salsicha rodopiando em torno de si mesmo, freneticamente, ao ver que eu iria abrir a porta do seu cantinho e lhe conceder a liberdade da rua, onde ela poderia sentir os odores deixados por outros caninos e, num dia de sorte, capturar algum cassaco desavisado que estivesse ao seu alcance. E o seu olhar pidão quando rondava a mesa onde eu estava comendo, certa de que jamais eu lhe sonegaria um naco de carne, um miolo de pão ou um pedaço de frango, ou ainda aquele outro olhar curioso das vezes em que um barulho externo captava a sua atenção, fazendo-a esquecer por segundos da minha presença, orelhas antenadas a captar os sons mais longínquos. Quando em meu colo, na rede, olhava-me como se procurasse ler os meus pensamentos, e chegava a choramingar se eu não lhe fazia o cafuné esperado. Se quisesse sair de perto de mim ela se levantava, em sinal de prontidão, dando-me a deixa para que eu a colocasse no chão e permitisse que ela saísse em desabalada carreira, na busca de atividade certamente mais prazerosa. Mas a sua partida nunca era um abandono: logo em seguida ela voltava, alegre e espevitada, como se nunca tivesse deixado de estar ali. Se eu estava lendo algum livro, assistindo a algum filme ou ouvindo alguma música, Preta ficava ao meu lado, ofegante, esparramada na frieza do piso, espiando-me pelo canto dos olhos. Ensaiava até um cochilo breve, mas ao menor movimento meu punha-se de pé, pronta para acompanhar-me aonde quer que eu fosse. Para ela a minha companhia parecia ser a melhor de todas. ?Barriguinha?, dizia eu, e logo Preta se deitava de patas pra cima, para que eu coçasse o seu ventre. Durante nove anos, desde 2008, vivenciamos juntos muitos momentos de ternura, de alegria e de paz. Agora tudo isso é só lembrança: um motorista irresponsável, dirigindo o seu carrão em desabalada carreira no condomínio onde moro, matou-a por atropelamento. Dor e saudade, muita saudade, estão entristecendo o meu coração.

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