Opinião
O DRIBLE DA VACA
Em tempos de violação de prerrogativas mínimas, com foi o caso da conversa entre o jornalista Reinaldo Azevedo e a irmã do Senador Aécio Neves, Andrea Neves, todos ficamos estarrecidos em razão de um super, mega, buster acordo de delação premiada. Aliás, de tão generoso, poderíamos chamá-lo de delação premiadíssima ou colaboração Disneylândia. Os sócios da JBS e a Procuradoria-Geral da República fizeram acordo. A moeda de troca utilizada para a formalização do acerto foi a conversa gravada por Joesley Batista com Presidente Temer, dentro Palácio do Jaburu, tarde da noite e fora da agenda oficial. Segundos os sites de notícias, Joesley adentrou à casa mais protegida do Brasil utilizando-se de uma senha, algo especial e apenas para os mais ?chegados?. Armou uma peça e ?batendo papo? normalmente revelou o pagamentos de vantagens indevidas a diversas autoridades e candidatos (teriam sido R$ 600 milhões), que tinha juiz titular e substituto em suas mãos, um procurador da República, além do que pagava ao ex-deputado Federal Eduardo Cunha mensalidade de míseros R$ 500 mil para que este ficasse em silêncio. O Presidente ouviu tudo e teria dado sinal positivo, aprovando o pagamento e sem tomar qualquer providência. Toda a conversa estava sendo gravada clandestinamente. O empresário levou a gravação com mais de 50 cortes e/ou edições ao Ministério Público Federal, que formalizou o acordo mais vantajoso de que se tem notícia, homologado pelo Ministro Edson Fachin. Para que se possa ter a dimensão da delação, a Procuradoria-Geral da República garantiu aos irmãos Batista que não serão denunciados, não poderão ser presos preventivamente, não usarão aparelho de monitoramento eletrônico, serão imunizados e com possibilidade de serem perdoados (o chamado perdão judicial). Além disso, foi anuída a transferência do domicílio para os Estados Unidos, exigindo, somente, que o endereço permaneça atualizado e o comparecimento quando forem chamados. Mas não é só. Os procuradores comprometeram-se a não compartilhar as provas e delações com outros juízes ou autoridades estrangeiras, caso não sejam preservadas as mesmas garantias. Os irmãos Batista, sabedores do dia no qual a gravação seria divulgada à imprensa e que tal notícia derrubaria o mercado de valores, compraram 1 bilhão de dólares (dentre outras transações). Com a queda da Bovespa e a disparada do dólar, ganharam R$ 80 milhões em um só dia, que serviu para pagar o acordo de devolução ao erário de míseros R$ 110 milhões (leniência). Atualmente, estão desfrutando uma luxuosa vida num apartamento em Nova Iorque de 900m². Enquanto isso, amarguramos a maior crise econômica de nossos 500 anos, profundamente agravada pelo pacote de bondades. Me recordo de Pelé, que na Copa de 70 protagonizou um belo drible da vaca. Após passe de Tostão, deixou a bola passar por um lado, pegando-a do outro, mas infelizmente não marcou gol. No caso dos irmãos Batista, a finta foi dada ao Estado de Direito (goleiro), tudo chancelado pelo Supremo Tribunal Federal (árbitro). A diferença foi que a bola entrou. Mesmo sendo gol contra (a lei), não se pode negar que foi um golaço.