Opinião
SOCO NA EDUCA��O
A cena é chocante: um policial aproxima-se de um estudante sentado em sala de aula e desfere-lhe um violento soco no rosto, logo depois tenta esganá-lo. O fato ocorreu numa escola pública de Maceió. Sobre as motivações, não há consenso. O Batalhão Escolar teria sido chamado após denúncia de tráfico de drogas e recebido com hostilidade pelos alunos. Em outro momento, o policial resolvera passar um sermão na turma e acabou não gostando da maneira como o estudante o olhava. De qualquer maneira, a constatação do absurdo, do despreparo e da falência da política de combate às drogas. Defendi, em artigos publicados neste jornal há algumas semanas, que o Estado precisa desenvolver uma estratégia para enfrentar as facções criminosas que se infiltraram em todos os níveis de poder da sociedade brasileira. Mas, ao que tudo indica, os governos preferem investir tempo e dinheiro reprimindo pequenos traficantes, com resultados inócuos, e encurralando usuários. Para a Polícia isso é desgastante, estressante. O pequeno delito não rende muitos dias de cadeia, e o ?avião? (assim chamados os jovens que trabalham para os senhores da droga) logo está de volta às ruas, configurando um ciclo interminável de violência. Há muito se diz que a educação é a saída para a juventude à mercê do tráfico, mas quando um estudante é agredido em plena sala de aula por um militar que deveria estar ali para protege-lo, essa assertiva ricocheteia no que havia de boa intenção e provoca indignação e ódio. Um batalhão escolar teria que estar preparado muito mais para ações educativas do que repressivas. Se a lógica está invertida, então temos que rever os passos e ajustá-los ao ritmo do que preconiza o bom senso. O vídeo da agressão foi compartilhado na internet e o caso tratado em programas policiais sob a mensagem velada de que se é jovem, pobre, negro, estuda em escola pública e não usa fardamento, é um potencial bandido, e nesse caso, a pancada, e não a palavra, é o remédio. Estamos retrocedendo. Cada vez mais incentiva-se o conflito, o confronto, a despeito de outras alternativas, como aconteceu em São Paulo com a cracolândia. Mais fácil passar um trator por cima de tudo, do que se dedicar ao trabalho de salvar pessoas. É claro que o tráfico deve ser combatido, mas a estratégia usada não está funcionando, isso é perceptível. Precisamos não apenas de mais policiais nas ruas, precisamos de policiais treinados nas ruas. A polícia não pode ser um braço executor ? como defendem alguns ?, mas sim uma instituição a qual se possa recorrer em momentos de necessidade e que inspire confiança e tolerância; atacada, deve reagir, mas nunca perpetrar a agressão.