Opinião
Vis�o nebulosa
Com a decisão do presidente Donald Trump de renegar o chamado Acordo de Paris, os Estados Unidos se unem à Síria e à Nicarágua, únicos países que não assumiram um compromisso internacional comum na luta contra as mudanças climáticas ? o primeiro por causa da guerra e o segundo por não concordar com os termos e querer maior contribuição dos países ricos. O tratado, assinado por 194 nações, prevê até 2030 a limitação do aumento das temperaturas mundiais. Sem os EUA, que são o segundo maior produtor de gases causadores do efeito estufa, o Acordo de Paris perde grande parte de seu sentido político e prático. A decisão de Trump, entretanto, não causou surpresa. Ele sempre mostrou resistência em relação ao tratado. Por diversas vezes negou que o aumento das temperaturas se deva à ação humana. Cortou programas de ciência climática e o orçamento da Agência de Proteção Ambiental, e autorizou o órgão a acabar com o Plano de Energia Limpa de Barack Obama. Sua motivação, porém, é mais econômica do que uma discordância dos ambientalistas. Visa favorecer às empresas energéticas tradicionais, como as grandes companhias que atuam nos setores de petróleo, carvão e gás natural. Para o presidente americano, o acordo é, na verdade, uma barreira burocrática que impede a livre expansão industrial e só oferece vantagens competitivas para a China e a Índia, ou seja, um mau negócio para os interesses econômicos dos Estados Unidos. Talvez Trump desconheça que os empregos no chamado setor de ?energia suja? estão escassos por razões tecnológicas e não por imposição das renováveis ou regulação ambiental. O gás natural é mais competitivo que o carvão. Empresas de energia renovável e eficiência energética são grandes empregadores: as indústrias eólica e solar estão criando empregos 12 vezes mais rapidamente que o restante da economia. Estima-se que, até 2030, o mercado de energias renováveis terá um valor de cerca de 6 trilhões de dólares. Sem o apoio federal, as empresas americanas podem perder terreno na pesquisa e desenvolvimento. Portanto, a decisão de Trump, além de ser um desastre do ponto de vista do meio ambiente, é equivocada também no aspecto econômico. Caso não seja revista, suas consequências serão danosas para o planeta.