Opinião
A AUS�NCIA DO MENESTREL
Ninguém ignora que o Brasil vive uma crise política sem precedentes. A crise se expressa, ademais, numa clivagem da sociedade entre visões políticas inconciliáveis, alimentadas por paixões exacerbadas, raciocínios binários carentes de visão histórica, desenhando um quadro em que a desqualificação ? não raro violenta ? do outro, do diferente, afasta do horizonte a perspectiva de pacificação e convívio democrático. Em cenário como esse, o caminho rumo ao futuro, que precisamos trilhar, pode ser entrevisto no passado recente, na reavaliação dos melhores exemplos da nossa política com P maiúsculo. Nada melhor, portanto, que lembrar e homenagear o grande brasileiro Teotônio Brandão Vilela, empresário e político alagoano nascido em Viçosa, e que teria completado cem anos de idade no último dia 28 de maio, se ainda estivesse entre nós. Teotônio foi usineiro de berço, conservador, mas que acabou encantando o Brasil quando denunciou os crimes do golpe militar (que a princípio apoiou) e promoveu uma campanha pela redemocratização do País. Visitou presos políticos, foi censurado ? convidado por estudantes, não pode proferir palestra na Universidade Federal de Alagoas no final dos anos 70, o exército cercou o campus; a palestra acabou ocorrendo na sua casa ? ameaçado, mas não esmoreceu. Sua trajetória pode ser resumida na música Menestrel das Alagoas, de Milton Nascimento e Fernando Brant: ?Quem é esse que conhece/Alagoas e Gerais/E fala a língua do povo/Como ninguém fala mais?/Quem é esse?/De quem essa ira santa/Essa saúde civil/Que tocando a ferida/Redescobre o Brasil?? Teotônio foi menestrel e meu mentor. Aprendi muito com ele. Foi, praticamente, quem abriu as portas da política para o jovem que também lutava por democracia. Sua voz vibrante, a segurança dos seus gestos impressionavam, contagiavam. Teotônio faz falta. Principalmente nos dias de hoje, quando a cisão impera e a perspectiva de uma Nação forte, unida, parece distante. Por isso devemos reverenciar sua memória, para que ela nos inspire e guie. O menestrel morreu no dia 27 de setembro de 1983. Não viu o Brasil eleger seu primeiro presidente da República pelo voto direto após o fim da ditadura. O câncer que o vitimou enfraqueceu-o fisicamente, mas não afetou sua alma, sua coragem, a saúde civil. Até o último momento continuou falando em rebelião ?como quem fala de amores para a moça do portão?. Honremos sua história .