Opinião
Descontrole
A violência urbana no Brasil é uma realidade bem comum no Brasil. Entretanto, quando se trata do Rio de Janeiro, a situação parece ter ultrapassado todos os limites. Há uma percepção não só entre os moradores da cidade maravilhosa, mas também do restante do País, de que a antiga capital federal vive, de fato, uma guerra, com evidências claras do aumento da criminalidade, homicídios, agressões e roubos. Somente de janeiro a junho deste ano ocorreram mais de 2,6 mil tiroteios no Rio. Estes foram responsáveis por quase 800 mortes. O controle de território por milícias, grupos de extermínio e traficantes com fuzis é outra das características do Rio. Estima-se que 843 áreas estejam dominadas por bandos armados. Mais de 100 policiais militares já foram assassinados este ano. As escolas em áreas de conflito fecham habitualmente para poupar as crianças do fogo cruzado e nos hospitais e centros de saúde os médicos viraram especialistas em atenção a baleados, muitos por fuzil. A sensação é de descontrole. Nos últimos anos, o governo do Estado adotou uma política de ocupação nas principais área de conflito, que, a princípio, pareceu dar bons resultados. As comunidades ?pacificadas? se tornaram até atrações turísticas. Passado algum tempo, entretanto, o modelo se esgotou, e aos poucos o clima de paz foi sendo substituído pela velha sensação de insegurança. O problema é que a ação do poder público se deu apenas pelo lado da repressão ao crime, mas faltou atacar outro fator que favorece a criminalidade: a ausência do Estado. Sem educação, saúde, esporte, lazer e assistência sociais, moradores dessas comunidades, principalmente jovens, são atraídos para o tráfico. Nos últimos dias, o aumento da violência levou o governo do Rio a apelar novamente para o auxílio das Forças Armadas. É mais um capítulo triste num estado que enfrenta uma das maiores crises econômicas de sua história. A violência no Rio e no Brasil é reflexo de um aprofundamento contínuo das desigualdades sociais, da ausência de políticas e de uma sequência de políticas equivocadas de combate à violência. É preciso, sim, agir com rigor para desarticular o crime organizado, mas só isso não basta. Se o poder público permanecer omisso nas demais áreas, ficará permanentemente enxugando gelo.