Opinião
FASES DA VIDA
A leitura, confesso, sempre foi uma de minhas grandes companheiras. Já li, desde gibis até os clássicos, degustando tanto os dizeres de Graciliano Ramos quanto dos laureados best-sellers da atualidade. Porém, quando mantive contato com os escritos de Vinicius de Morais, apaixonei-me por um deles, que diz mais ou menos assim: ?Quem passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu?. Assim, procurei conviver com cada etapa da existência, saboreando meus momentos. Minha infância feliz, quando me distraía na rua, não sem antes preparar as lições do dia; deslizar no tobogã sem me preocupar com as roupas que vestia; tomar banho de chuva sem dar bolas à gripe ou brincar de garrafão com a garotada vizinha. Na juventude, continuei a encontrar inspiração nas palavras do grande Vinicius: ?... a vida só se dá para quem amou, para quem chorou, para quem sofreu...?. Então passei a encarar o cotidiano com olhos da sobrevivência. Apesar de continuar focado nos estudos. Já então trabalhando como professor em colégios diversos de Maceió, adorava andar de bicicleta, não sentindo vergonha de visitar as meninas da redondeza em minha Monarck modelo ?copa do mundo?. O tempo passou. As responsabilidades de cidadão adulto desnudaram a aridez do cotidiano real, mostrando ser necessário um permanente esforço para sobreviver. Mais uma vez encontrei inspiração no velho e bom Vinicius: ?Eu francamente já não quero nem saber de quem não vai porque tem medo de sofrer?. Assim, fui levado pelas responsabilidades, sempre amando meus familiares mais próximos e apaixonado pelas atividades e obrigações de minha competência. Os anos parecem haver voado. Procuro viver cada momento em plenitude, certo de meus amigos de outrora continuarem ocupando meu coração, embora distantes do contato diário. Alguns, inclusive, já habitando outra dimensão. Pensando em cada fase da vida, valorizo, sem saudosismo doentio, aquela infância feliz, quando as crianças se divertiam seguras, as vontades de um pai eram entendidas pelo simples olhar, as mães tinham tempo para os buscarem na escola e os professores começavam suas aulas sem grandes dificuldades porque os alunos faziam silêncio, quando as avistavam. Recordo um dos últimos diálogos mantidos com Rostand, meu genitor. Ele discorreu sobre as etapas de sua vida, com especial ênfase ao ocaso da existência. Dizia ter havido um período quando constantemente comparecia aos cemitérios de Maceió, para sepultar seus amigos de sempre. Contudo, já há algum tempo, não mais realizava tão dolorosa tarefa, porque todos haviam partido, deixando-o só, apesar de muito bem acompanhado por seus familiares. Meu pai faleceu aos noventa e dois anos de idade e nenhum colega da infância ou juventude compareceu à sua despedida. Certamente o esperavam no Além, destino final de todos nós.