Opinião
QUANTOS MAIS TER�O QUE SOFRER?
O recentemente publicado Atlas da Violência 2017, bem cuidado estudo, fruto de uma exitosa parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), descortinou o quadro da criminalidade violenta que assola o País. No Brasil, a magnitude da incompetência do Estado brasileiro para planejar e executar políticas de segurança pública, manifesta-se no fato que somente em um período de três semanas são assassinadas mais pessoas do que o total de mortos em todos os ataques terroristas no mundo nos cinco primeiros meses de 2017. O Atlas, alicerçado em análises dos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde constatou a intolerável estabilidade dos homicídios no Brasil, na ordem de 59 mil homicídios ao ano. Igualmente reprovável é o inalterável padrão do perfil das vítimas da violência homicida: homens, jovens, negros e com baixa escolaridade. Impressiona o racismo nada cordial expresso nesse perfil das vítimas da violência letal. Pouco ou quase nada importa para o poder público e a sociedade brasileira que os homicídios no Brasil sejam cometidos, em sua maioria, contra os jovens negros. De cada 100 brasileiros que sofrem homicídio, 71 são negros. Na última década o racismo brasileiro naturalizou o aumento da violência letal contra jovens e negros, foram 318 mil jovens mortos e o aumento na diferença na letalidade contra negros em 34,7%. Nesse sentido, a situação de Alagoas é emblemática, pois mesmo figurando entre os estados com as maiores diminuições nas taxas de homicídios entre os anos de 2010 a 2015, taxa de (-21,8%), ao lado do Espírito Santo (-27,6%) e do Paraná (-23,4%), segue ostentando a astronômica taxa de homicídio por 100 mil habitantes de negros de 68,0%. As estatísticas do Atlas não permitem que sejamos indiferentes. Por trás dos números frios, estão milhares de vidas de jovens negros precocemente ceifadas, estão a dor, impossível de nominar de suas mães, como as Marias, mãe do Davi da Silva e dos irmãos Josenildo e Josivaldo Ferreira. Poderíamos seguir citando outras vítimas, mas lembra bem a letra aguda do rap dos Racionais: ?...Se eu fosse citar o nome de todos os que se foram/ o meu tempo não daria para falar mais.../Quantos terão que sofrer? Racionais MC?s? (?Pânico na zona Sul?).