Opinião
A VIOL�NCIA DA INTOLER�NCIA POL�TICA
Vivemos tempos difíceis. A crise política pela qual passa o Brasil tem produzido efeitos perversos na nossa sociedade. Para além de descortinar todas as tramas da corrupção naturalizada entre integrantes da nossa classe política e grandes empresas, também impacta na relação entre as pessoas, com a polarização da sociedade. O Brasil se divide em cores e símbolos aparentemente inconciliáveis, tal qual numa guerra, em que não há interesse em compor e pacificar. O propósito é vencer e, para isso, é preciso eliminar o outro, agora elevado à categoria de inimigo. É evidente que todos querem um País melhor. No entanto, o cenário contemporâneo de histeria coletiva é incompatível com um diálogo salutar e civilizado. Nessa lógica nefasta, não basta divergir do seu interlocutor: é preciso aumentar a voz, acusar de miopia, destituir o lugar do outro. Sintomas do descontrole de pessoas que usam da violência, nas suas diversas expressões, como meio para a defesa do seu ponto de vista. Respeito à opinião alheia? Não. Isso não faz parte das arenas de guerra que se tornaram as redes sociais ou qualquer espaço de conversa informal sobre os desdobramentos jurídicos e políticos do País. Em tempos de discursos de ódio, a racionalidade perde lugar. Essa racionalidade, conquistada a duras penas com o advento da Modernidade, sobre a qual se ergueu o ideal de construção e aplicação de um direito livre de paixões, tende a ser deslegitimada, de forma tão grave que até o próprio estado de direito se vê ameaçado. Em nome da moralização do País defende-se um sistema jurídico-penal populista, incompatível com a garantia de direitos individuais, absurdo que nos coloca a todos no terreno movediço da insegurança jurídica. Além disso, a intolerância política não está sozinha. Ela vem no contexto mais amplo de intolerâncias relacionadas a gênero, raça e classe, num conjunto de violências contrárias aos direitos fundamentais erguidos nos pilares da democracia. Diante da instabilidade político-institucional do Brasil, alguns chegam a cogitar o absurdo retrocesso à ditadura militar. É pouco provável que algo nesse sentido se concretize no Brasil, diante dos avanços que a democracia possibilitou nas últimas décadas. No entanto, é preciso reconhecer que há algo semelhante àquele sombrio momento histórico: a censura, não mais imposta por um governo militarizado, mas sim pela intolerância à opinião do outro. Ditadura velada e extremamente perversa.