Opinião
TEMPO DE INVERNADA
Semana passada eu presenciei de novo, em Murici, a cena que tantas vezes eu vi durante a minha infância, na época das chuvas. O Mundaú enchendo, com as suas águas caudalosas arrastando tudo o que havia nas margens, e os meninos afoitos pulando da ponte em cima das baronesas que deslizavam, céleres, qual canoas improvisadas. Esse era o gesto supremo de coragem entre os da minha geração, o de precipitar-se na fúria do rio cheio, ousadia que nunca fui capaz de praticar e que eu espiava, à distância, com um tanto de admiração e uma pontinha de inveja. Eu mesmo, quando menino, nas poucas vezes em que mergulhei no Mundaú fi-lo às escondidas de mamãe, estimulado por Dominguinho, afilhado do meu pai e companheiro das minhas singelas estripulias. E o banho era para mim como um grito de independência, uma sensação de liberdade que me tornava irmanado à natureza da minha terra. Nos demais meses do ano o Mundaú corria sereno, ?como que num aceno procurando o mar?, nos belos versos do poeta Cícero Silva, símbolo maior da identidade muriciense. Já maltratado pela tiborna da Usina São Semeão e pelos esgotos da zona urbana, agredido pelo lixo das casas ribeirinhas, o rio era para nós como um velho amigo um tanto alquebrado, presença discreta a nos relembrar dos seus antigos dias de glória, quando abastecia a cidade de água potável e transportava as pessoas de uma margem à outra. Ainda se pescavam tainhas e carapebas, ainda se achavam pitus nas locas mais escondidas. O canto das lavadeiras, batendo roupas na Pedra do Caboclo, quebrava o silêncio das manhãs mal iniciadas, carpindo amores não correspondidos e saudades profundas de doer. Entre junho e julho essa rotina de mansidão se alterava drasticamente. Começava a chover para as bandas de Pernambuco, onde o Mundaú nasce, e a cheia medonha vinha ganhando força e tomando corpo, tecendo uma correnteza que chegava em Murici já forte, potente, assustadora mesmo. Da Rua da Floresta à Rua do Cajueiro, os casebres humildes eram os primeiros a sofrer com a força indomável, os poucos cacarecos levados pelas águas, os móveis toscos destroçados por completo. Desse jeito, entre a tragédia e a algazarra, ora destruindo sonhos, ora cultivando encantos, o Mundaú convivia conosco, marcava as nossas vidas, fazia-se nosso irmão de caminhada. Nós o conhecíamos de perto. O seu barulho acalentava o nosso sono, a sua frescura lavava o nosso suor, a sua eterna ida nos ensinava a querer seguir sempre em frente, a buscar novos horizontes, a não temer (nem tremer) diante do desconhecido. O rio foi para nós um professor inesquecível.