Opinião
HOMENS DE PAZ
RONALD MENDONÇA * Se, de fato, como professam algumas religiões, as pessoas se encontram depois que morrem (ou desencarnam), deve ter sido bem ameno o reencontro de Napoleão Barbosa com Eduardo Jorge, dois ilustres alagoanos mortos recentemente. Talvez o radiologista Eduardo Jorge, reservado como sempre, e para não magoar, tenha evitado relatar a frieza com que foi tratado o passamento do ex-presidente da Federação das Indústrias de Alagoas. É possível que Eduardo, com todo aquele potencial de peculiar introspeção, tenha refletido sobre o quão é efêmero o poder, só se igualando em velocidade ao sumiço dos bajuladores. Fico imaginando Napoleão ainda com o poder, na fila de autoridades e puxa-sacos em geral para se candidatarem a mostrar serviço em emocionados discursos à beira de sua sepultura, a enaltecer-lhe as qualidades morais e empreendedoras... Fantasias à parte, e sem levar em conta a imensa dívida que Alagoas tem com esse homem, quero dizer que minha aproximação com Napoleão Barbosa foi tão curta quanto intensa: passamos um mês juntos, há 22 anos, num mesmo ônibus, visitando alguns países. Como dizem que as pessoas mostram como realmente são, numa viagem ? ou numa mesa de jogo ?, a impressão que ficou é a de uma pessoa mansa, simples, correta e boa. Mestre de várias gerações de médicos, formador de radiologistas, convivi profissionalmente com Eduardo Jorge por quase três décadas. Presença marcante pelo horário britânico, afável sem exageros, nunca o vi elevar o tom de voz. Avesso a discussões, só se sabia que ele tinha tido algum aborrecimento ou se algo o preocupava quando ele próprio admitia. Continuei aprendendo com ele a vida toda. Dizia gostar do que eu escrevia. De vez em quando tomei carona em algumas de suas idéias. A vida toda aprendi com ele. Batalhador incansável pela melhoria do setor de diagnóstico da Santa Casa de Misericórdia, foi o responsável direto pela evolução ? e revolução ! ? que se deu nesse campo. A Ressonância Magnética, única no Estado, por exemplo, é a cara do Eduardo. Ávido por novos conhecimentos, cada vez que se falava num novo recurso diagnóstico, lá estava o nosso decano disposto a dominá-lo. Essa santa curiosidade permitiu-lhe a amarga surpresa de diagnosticar, há alguns anos, em si próprio, a doença que o vitimou. Com a certeza de que a medicina alagoana perdeu um dos seus quadros mais ilustres, a dúvida é saber se o maior legado do respeitado colega está na sua brilhante trajetória como professor e pesquisador ou se na sua inexcedível postura ética. * É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL