Opinião
Pux�o de orelha
Em sua recente e inoportuna viagem à Rússia e à Noruega, o presidente Michel Temer passou por vários constrangimentos. Um deles foi a insatisfação manifestada pelo governo norueguês com a condução da política ambiental no Brasil. A Noruega é o maior doador do Fundo Amazônia, para o qual já destinou cerca de R$ 2,8 bilhões, entre 2009 e 2016, com objetivo de financiar a preservação da nossa floresta tropical. Nos últimos dias, porém, autoridades norueguesas têm feito fortes críticas ao governo brasileiro e ameaçado suspender o financiamento para proteção ambiental. O ministro do Meio Ambiente daquele país, Vidar Helgesen, enviou carta a seu colega brasileiro, Sarney Filho, manifestando dúvidas sobre a continuidade e a utilidade do Fundo Amazônia diante da alta das taxas de desmatamento e da série de propostas em discussão no governo e no Congresso para enfraquecer a proteção ambiental no Brasil. Segundo o ministro norueguês, a escalada do desmatamento nos anos de 2015 e 2016 revela uma ?tendência preocupante?, e da reversão dessa tendência ?determinará o futuro de parceria entre o Brasil e a Noruega. Mais adiante no texto, ele expressou o temor de que os bilhões de reais doados por seu país e pela Alemanha para reforçar o combate ao desmatamento no Brasil ?tenham tido um impacto apenas temporário?. Helgesen deixou claro que as doações são baseadas em resultados: o dinheiro é repassado se o desmatamento é reduzido. Isso significa que, da mesma forma, se o desmatamento está subindo, como acontece atualmente, haverá menos recursos disponíveis. De fato, o desmatamento, que vinha em uma tendência de queda há alguns anos no Brasil, teve um aumento de 58% em 2016, segundo estudo da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Além disso, ambientalistas têm criticado o fortalecimento de grupos ?ruralistas? no governo Temer que têm atuado para aprovar no Congresso a flexibilização das regras de licenciamento ambiental e a redução de áreas de proteção. Não bastassem os graves problemas internos, tanto políticos quanto econômicos, Temer também se depara com o desgaste perante a comunidade internacional. O cenário, portanto, ainda é desolador.