Opinião
AO COMPANHEIRO, COM AMOR
A sensação doída de perder um companheiro de quase 50 anos de união pode ser mal traduzida pelo termo ?lacunar?. Como traduzir algo tão avassalador? Olhar os espaços de nossa casa sem a forte presença dele, que construiu tijolo por tijolo o espaço onde criamos nossos três filhos, onde nos amamos, conversamos exaustivamente, é extremamente doloroso. Lembramos, inclusive, nossas discordâncias, algo muito comum em relação que envolve homem e mulher, uma poeta e um engenheiro, que brigavam como qualquer casal e faziam as pazes porque sabiam, como sempre soubemos,que um faria muita falta ao outro. Tínhamos,os dois, essa delicada e amorosa certeza. Em uma das encrencas de casal,disse a mim mesma que se saísse de casa supervisionaria sua saúde, coisa que ele nunca fez muito bem. Depois disse isso a ele, que respondeu sensual e bem humorado: ?Não! Remédio só, não. Queria serviço completo: cama, mesa e remédios.? Sorrimos de nossas contradições e aprendemos juntos, em graus e momentos diversos, a importante e difícil arte de amar e respeitar as diferenças do outro. Por temperamento, sofro mas não desespero, porque sempre me apoio nos pontos de referência, que me sustentam: meus filhos, minha família, meu trabalho, minha escrita, meus amigos e, principalmente, eu mesma. Foi assim quando tive um câncer de seio em 2010. E agora me lembro muito da perplexidade, do sofrimento daquela época, da firme e às vezes difícil determinação de tocar as coisas, tentando atribuir ao cotidiano novo e triste uma função operatória: fazer coisas para não pensar no sentimento de perda, dolorosamente lacunar; no luto, inevitável e necessário.Um luto que não queríamos mas que chegou, anunciado e inevitável. A maior falta que Augusto me faz é a da interlocução afetiva. Conversávamos sobre política, sobre nossos filhos e netos, sobre tudo. Já doente e com a visão debilitada, lia artigos de revistas para ele. Eu lia e tecia comentários sobre a convulsão política do País; ele sorria, um sorriso muito empalidecido pela doença, mas gratificado. E agradecia, com amor. Quem poderá repor essa comunicação sutil e quase mágica entre seres que se amam? Quem entenderá a necessidade que temos de cuidar bem dos que amamos? O amor muda de face, mas permanece, como uma seiva medular. Envelhece e matura, como os melhores vinhos. Querido companheiro: você veio de longe para fincar suas boas raízes nesta cidade que se tornou sua. Como nossa história de coisas simples e belas, às vezes intraduzíveis em palavras. Amo você, sempre. E a memória do que vivemos sobreviverá ao tempo, às pessoas e às coisas na história que juntos construímos. Nos filhos e netos. No amor, enfim. Saudades, querido.